Manifesto Ludonet

Está nos jornais: fechou mais uma dotcom. Naquele grande portal, onde foram investidos milhões, foram demitidos vários funcionários. Você sabe disso tudo, você vive essa realidade. Você se conecta na Internet e dá de cara com esse tipo de notícia na página inicial do seu provedor. Desculpe, no portal do seu provedor. Você acompanha o fluxo incensante de notícias e vê os grandes impérios comerciais da rede ruindo, levando a reboque algumas boas idéias. Você vê tudo isso e se sente desanimado.

Mas assim como você vê os grandes impérios ruindo você vê cada vez mais gente falando de Internet. Podem não falar da rede propriamente dita, mas falam que o Napster está uma porcaria e que descobriram os servidores OpenNap, alguns especializados em reunir fãs de jazz. Falam da página da companhia telefônica que permite que se mande mensagens para o celular do namorado. Falam do curso de Flash que estão fazendo, só pelo prazer de poderem fazer coisas legais. Falam do blog que estão querendo fazer e vendo que a coisa é mais simples do que imaginavam. Você vê isso, sente que há um agito, uma ferveção.

Não são contraditórias estas duas manifestações? Não, não são. Na verdade os impérios estão ruindo devido à sua arrogância e à sua falta de visão. Estavam tão ofuscadas pelo brilho do ouro, pela promessa do shopping online que esqueceram uma coisa básica: as pessoas que iriam frequentar tais shoppings. Chamarizes foram criados, com produção gráfica requintada, mas rasteiros, de leitura rápida e inócua. Um bolo de palha com uma bela cobertura e sem nenhum sabor. E os shoppings aos poucos estão ruindo, com as suas áreas de lazer ficando cada vez mais desolados, sem conseguir atrair público de fato. O ouro se revelou de tolo para quem não soube ver que além de comprar as pessoas vão ao shopping para ver pessoas interessantes, diferentes, ver se estão em dia com a moda e os costumes. Encontrarem-se. Acabe com a praça de alimentação de um shopping e veja quanto tempo ele dura.

E o que vemos hoje são os locais onde as pessoas se encontram ficando cada vez mais fortes. Locais onde a estrela não é aquela da novela, mas sim aquela que se apresenta criativa, que tem voz. Por que nos grandes portais é quase uma heresia falar em fechar as salas de chat? Por que é para lá que as pessoas vão. Elas querem se comunicar, querem manter o diálogo, nem que esse diálogo seja uma constante troca de olás e ois, sem passar disso. E o ter um milhão de amigos, e se sentir possuidor de seus 15 minutos de fama.

Assim sendo, faço a chamada: viva a recessão dotcom, viva a ressaca da orgia das start-ups. A rede nasceu militar, foi universitária e passou a ser comercial. Mas, de qualquer maneira, sempre foi humana, mesmo que as primeiras interações fossem de técnicos deslumbrados pela maraviha que estavam criando. E é justamente o humano que está se revelando novamente, agora que a poeira da construção dos shoppings virtuais está assentando. É o humano que mais uma vez está mostrando que é ele que realmente vale a pena, que é o desejo de trocar idéias, de se manifestar, que faz as pessoas se conectarem. É o humano que está se fazendo mostrar, com suas pequenas iniciativas distribuídas, ignorando as promoções sem sentido, procurando pela música daquele artista quase alternativo. É o humano que está espalhando uma série enorme de weblogs pela rede. É o humano que faz com que computadores sem fio, que servem unicamente para troca de mensagens, sejam febres em alguns países. É o humano que está se revelando lúdico, preferindo a andar pelas áreas verdes da rede a ficar preso no concreto das lojas online. É o humano, com seu lado mais lúdico e sonhador, que está olhando a queda destes impérios virtuais e dá de ombros, já que uma loja a mais ou a menos não lhe diz respeito.

E que baseada na troca de idéias e opiniões, com pés no lúdico e no hedonista, continue florescendo a rede que une todos esses humanos em seus sonhos!

São Leopoldo (RS), 12 de junho de 2001.