O fundo do poço

A história de uma historinha (por Delacir Mazzini)

O mercado de ações brasileiro atingiu seu ponto culminante no primeiro semestre de 1971. Banco do Brasil chegou a Cr$ 57,00, Vale do Rio Doce a Cr$ 54,00, Belgo Mineira a Cr$ 20,00, enquanto outros papéis, de empresas notoriamente deficitárias, atingiam preços acima de Cr$ 8,00. O envolvimento do povo brasileiro no mercado de ações era quase total. Só não entrou quem não tinha dinheiro ou quem não tinha nada para converter em dinheiro. Um jornal do Rio publicou a notícia de que empregadas domésticas, engraxates e cobradores de ônibus também estavam investindo, encomendando às corretoras lotes de 5 ou 10 ações.

Os que estavam no mercado havia muitos anos mostravam sinais de preocupação. É que conheciam o fato de que, em 1929, Joseph Kennedy, pai de John, estava num elevador quando o ascensorista lhe pediu uma “dica” pois queria investir. Kennedy saiu do elevador pensando seriamente no problema: “Quando os ascensoristas entram no mercado é hora de sair”. Saiu antes da catástrofe de outubro. Outro grande especulador, Baruch, que durante quase três décadas tinha feito milhões na bolsa, foi procurado na mesma ocasião por um mendigo, que lhe ofereceu uma “dica”. Baruch pensou no caso, vendeu tudo o que tinha e comprou ouro. Antes da Quinta-feira Negra.

A alta de Wall Street começou em 1922 e terminou em 1929. A alta no Brasil começou em janeiro de 1971 e terminou em junho de 1971. Alguns meses depois, quando não havia possibilidade de recuperação, a bolsa se transformou em piada. As cotações foram caindo até ficarem “lá embaixo”. Nessa altura milhares já estavam chorando o dinheiro perdido, e todos sentiam calafrios quando ouviam falar em ações.

Foi quando, depois de vasta experiência no mercado acionário (pelo amor de Deus!), escrevi e mostrei ao Lucas uma historinha chamada: “O fundo do poço”. Em gíria do mercado, “fundo do poço” é o ponto mais baixo que uma ação pode atingir. O momento era oportuno para a sua publicação, e o Satel-jornal a estampou, em seu número 35 de junho de 72, na seguinte versão (aproximadamente, pois o Lucas já precisou fazer uma primeira adaptação, por motivo de espaço):

…Não me lembro de tudo, sêo Delegado, mas parece que o caso foi mais ou menos assim:

Há pouco mais de um ano, todo mundo falava em bolsa de valores, cotações, altas, estouros, bancários que tinham investido seu 13º salário em ações e ficaram bilionários. Eu fui um dos últimos a entrar, queria antes ter a certeza de que a coisa funcionava. Minha mulher tinha umas economias em letras de câmbio, eu sempre gostei de economizar, e, além disso, o meu fusca estava pago.

Por intermédio de um colega, acabei sendo apresentado a um corretor. Bons tempos. Belgo Mineira estava a 14 e caiu a 12 por causa de umas ações falsas:

- Belgo a Cr$ 12,00 é o fundo do poço, segregou-me o corretor. Vai fácil para 28 antes de três meses.

Empreguei primeiro as minhas economias. Três dias, e Belgo disparou para Cr$ 18,00. Arrependi-me de não ter vendido as letras de câmbio de minha mulher e enterrado tudo em Belgo. Mas ainda tinha o fusca. Vendi-o. Dez milhos à vista. Então, houve um recuo na bolsa.

- É uma queda técnica, falou de novo o corretor. Belgo a Cr$ 15,00 é uma moleza, uma covardia…

Assim, eu enfiei o dinheiro do fusca na Belgo a Cr$ 15,00. Depois caiu para Cr$ 13,00, Cr$ 12,00, Cr $ 11,00…

- Belgo a Cr$ 11,00 é o piso. Disse o corretor. Nossos analistas fizeram um estudo e chegaram à conclusão de que esse papel esta…

- .. no fundo do poço, completei eu.

Parecia que estava mesmo. O papel batia em Cr$ 11,00, depois subia para Cr$ 13,00. Resgatei as letras de câmbio da patroa e entrei na Belgo a Cr$ 11,00, numa baixa repentina. Eu estava começando a entender o joguinho. Só que as coisas começaram a ficar meio esquisitas. Belgo caiu para Cr$ 8,00, depois foi a Cr$ 10,00. Quando caiu a Cr$ 7,00, o corretor telefonou-me excitado:

- Belgo a Cr$ 7,00 é o fim da picada. Quer entrar numa tacada grande? Você faz uma operação a termo, nós entramos com a caução. Esse papel vale no mínimo Cr$ 15,00. Na próxima virada do mercado você fatura horrores. A alta está iminente.

Foi assim que eu entrei no mercado a termo. Só que três meses depois, na hora de liquidar o termo, a Belga estava a Cr$ 4,50. Fui no escritório do corretor, para fazer o acerto de contas.

- É. Infelizmente não deu certo, falou ele. São coisas do mercado. Mas na bolsa a gente se refaz depressa. É hora de comprar maciçamente. Estamos abaixo do fundo do poço.

Feitas as contas, fiquei a zero. Minhas economias, o fusca, as letras de minha mulher… Terminado o acerto, fui saindo. O corretor fez questão de acompanhar-me; paletó no braço, que estava calor. Chegamos ao elevador. Por algum defeito técnico, a porta estava escancarada para o vazio, para os dez andares do poço do elevador. E o corretor falando, falando…

Dizem que eu empurrei o homem. Não sei. Não me lembro. A única coisa de que eu tenho certeza é que, afinal, naquele momento, o corretor conseguiu achar o fundo do poço.

Circularam desse número do Satel-Jornal 20.000 exemplares, e a historinha seguiu seu destino. Por ter sido publicada em ocasião muito oportuna, foi reproduzida muitas vezes, e recortes dela circularam por aí.

Um dia ela apareceu numa coluna da revista Visão. Só que o redator da revista não mencionou a fonte. A historinha chegara às suas mãos em forma de recorte xerografado. Não foi mencionado o nome da Belgo Mineira, que o redator preferiu chamar de “dica de corretor”. E acrescentou mais algumas coisas por conta própria.

De qualquer forma, pelo menos mais de 100.000 pessoas tomaram conhecimento da historinha, que já agora, depois de circular por coretoras, financeiras e escritórios, passara a pertencer ao folclore do mercado de ações.

Naturalmente, chegou também ao público em geral, com distorções curiosas. Um dia por exemplo, um motorista de taxi me contou, como sendo fato verídico, a notíca de que um investidor, enlouquecido por ter ficado na miséria, tinha atirado o corretor pela janela do 15º andar… E acrescentou:

- Eu tive vontade de fazer a mesma coisa com o meu corretor. Naquele negócio de ações perdi um terreno que eu tinha em São Miguel Paulista, meu único patrimônio.

Fonte: “Todos para o banheiro e outras histórias”, da A.J. Lucas Camargo