{"id":232604,"date":"2011-06-15T23:40:52","date_gmt":"2011-06-16T02:40:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/?page_id=232604"},"modified":"2011-06-15T23:43:38","modified_gmt":"2011-06-16T02:43:38","slug":"doutor-e-quem-faz-doutorado","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/doutor-e-quem-faz-doutorado","title":{"rendered":"Doutor \u00e9 quem faz doutorado"},"content":{"rendered":"<p>No momento em que n\u00f3s do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o nos preparamos para  atuar contra diversas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior por conta do  n\u00famero m\u00ednimo de mestres e doutores, eis que surge (das cinzas) a velha  arenga de que o formado em Direito \u00e9 Doutor.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria, que, como boa mentira, muda a todo instante seus  elementos, volta \u00e0 moda. Agora n\u00e3o como resultado de ato de Dona Maria, a  Pia, mas como consequ\u00eancia do decreto de D. Pedro I.<\/p>\n<p>Fui advogado durante muitos anos antes de ingressar no Minist\u00e9rio  P\u00fablico. H\u00e1 quase vinte anos sou Professor de Direito. E desde sempre  vejo &#8220;docentes&#8221; e &#8220;profissionais&#8221; venderem essa balela para os pobres  coitados dos alunos.<\/p>\n<p>Quando coordenador de Curso tive o desprazer de chamar a aten\u00e7\u00e3o de  (in) docentes que mentiam aos alunos dessa maneira. Eu lhes disse,  inclusive, que, em vez de espalharem mentiras ouvidas de outros, melhor  seria ensinarem seus alunos a escreverem, mas que essa minha esperan\u00e7a  n\u00e3o se concretizaria porque nem mesmo eles sabiam escrever.<\/p>\n<p>Pois bem!<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca, a hist\u00f3ria que se contava era a seguinte: Dona Maria,  a Pia, havia &#8220;baixado um alvar\u00e1&#8221; pelo qual os advogados portugueses  teriam de ser tratados como doutores nas Cortes Brasileiras. Ent\u00e3o, por  uma &#8220;l\u00f3gica&#8221; das mais obtusas, todos os bachar\u00e9is do Brasil,  magicamente, passaram a ser Doutores. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria muita  intelig\u00eancia para perceber os erros desse racioc\u00ednio. Mas como muita  gente pode pensar como um ex-aluno meu, melhor desenvolver o pensamento  (dizia meu jovem aluno: &#8220;o senhor \u00e9 Advogado; pra que fazer Doutorado de  novo, professor?&#8221;).<\/p>\n<p>1) Desde j\u00e1 saibamos que Dona Maria, de Pia nada tinha. Era Louca mesmo! E assim era chamada pelo Povo: Dona Maria, a Louca!<\/p>\n<p>2) Em seguida, tenhamos claro que o t\u00e3o falado alvar\u00e1 jamais  existiu. Em 2000, o Senado Federal presenteou-me com m\u00eddias digitais  contendo a cole\u00e7\u00e3o completa dos atos normativos desde a Col\u00f4nia (mais de  quinhentos anos de hist\u00f3ria normativa). N\u00e3o se encontra nada sobre  advogados, bachar\u00e9is, dona Maria, etc. Para quem quiser, a consulta hoje  pode ser feita pela Internet.<\/p>\n<p>3) Mas digamos que o tal alvar\u00e1 existisse e que dona Maria n\u00e3o fosse  t\u00e3o louca assim e que o povo fosse simplesmente maledicente. Prestem  aten\u00e7\u00e3o no que era divulgado: os advogados portugueses deveriam ser  tratados como doutores perante as Cortes Brasileiras. Advogados e n\u00e3o  quaisquer bachar\u00e9is. Portugueses e n\u00e3o quaisquer nacionais. Nas Cortes  Brasileiras e s\u00f3! Se voc\u00ea, portanto, fosse um advogado portugu\u00eas em  Portugal n\u00e3o seria tratado assim. Se fosse um bacharel (advogado n\u00e3o  inscrito no setor competente), ou fosse um juiz ou membro do Minist\u00e9rio  P\u00fablico voc\u00ea n\u00e3o poderia ser tratado assim. E n\u00e3o seria mesmo. Pois os  membros da Magistratura e do Minist\u00e9rio P\u00fablico tinham e t\u00eam o  tratamento de Excel\u00eancia (o que muita gente n\u00e3o consegue aprender de  jeito nenhum). Os delegados e advogados p\u00fablicos e privados t\u00eam o  tratamento de Senhoria. E bacharel, por seu turno, \u00e9 bacharel; e ponto  final!<\/p>\n<p>4) Continuemos. Leiam a Constitui\u00e7\u00e3o de 1824 e ver\u00e3o que n\u00e3o h\u00e1  &#8220;alvar\u00e1&#8221; como ato normativo. E ainda que houvesse, n\u00e3o teria sentido que  algu\u00e9m, com suas capacidades mentais reduzidas (a Pia Senhora), pudesse  editar ato jur\u00eddico v\u00e1lido. Para piorar: ainda que existisse, com os  limites postos ou n\u00e3o, com o advento da Rep\u00fablica cairiam todos os modos  de tratamento em desacordo com o princ\u00edpio republicano da veda\u00e7\u00e3o do  privil\u00e9gio de casta. Na Rep\u00fablica vale o m\u00e9rito. E assim ocorreu com  muitos tratamentos de natureza nobili\u00e1rquica sem qualquer valor a n\u00e3o  ser o valor pessoal (como o bras\u00e3o de nobreza de minha fam\u00edlia italiana  que guardo por mero capricho porque nada vale al\u00e9m de um cafezinho e  isto se somarmos mais dois reais).<\/p>\n<p>A coisa foi t\u00e3o longe \u00e0 \u00e9poca que fiz quest\u00e3o de provocar meus  advers\u00e1rios insistentemente at\u00e9 que a Ordem dos Advogados do Brasil se  pronunciou diversas vezes sobre o tema e encerrou o assunto.<\/p>\n<p>Agora retorna a historieta com ares de renova\u00e7\u00e3o, mas com as velhas mentiras de sempre.<\/p>\n<p>Agora o ato \u00e9 um &#8220;decreto&#8221;. E o &#8220;culpado&#8221; \u00e9 Dom Pedro I (IV em Portugal).<\/p>\n<p>Mas o enredo \u00e9 id\u00eantico. E as palavras se aplicam a ele com perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vamos enterrar tudo isso com um s\u00f3 golpe?!<\/p>\n<p>A <a id=\"citacaoLegis\" title=\"Lei\/27\" href=\"http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/legislacao\/104062\/lei-27\">Lei<\/a> de 11 de agosto de 1827, respons\u00e1vel pela cria\u00e7\u00e3o dos cursos jur\u00eddicos  no Brasil, em seu nono artigo diz com todas as letras: &#8220;Os que  frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprova\u00e7\u00e3o,  conseguir\u00e3o o grau de Bachareis formados. Haver\u00e1 tambem o grau de  Doutor, que ser\u00e1 conferido \u00e0queles que se habilitarem com os requisitos  que se especificarem nos Estatutos que devem formar-se, e s\u00f3 os que o  obtiverem poder\u00e3o ser escolhidos para Lentes&#8221;.<\/p>\n<p>Traduzindo o \u00f3bvio. A) Conclus\u00e3o do curso de cinco anos: Bacharel.  B) Cumprimento dos requisitos especificados nos Estatutos: Doutor. C)  Obten\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo de Doutor: candidatura a Lente (hoje Livre-Docente,  pr\u00e9-requisito para ser Professor Titular). Entendamos de vez: os  Estatutos s\u00e3o das respectivas Faculdades de Direito existentes naqueles  tempos (S\u00e3o Paulo, Olinda e Recife). A Ordem dos Advogados do Brasil s\u00f3  veio a existir com seus Estatutos (que n\u00e3o s\u00e3o acad\u00eamicos) nos anos  trinta.<\/p>\n<p>Senhores.<\/p>\n<p>Doutor \u00e9 apenas quem faz Doutorado. E isso vale tamb\u00e9m para m\u00e9dicos, dentistas, etc, etc.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o faz com que nos chamemos de Doutores. Mas isso n\u00e3o torna  Doutor nenhum m\u00e9dico, dentista, veterin\u00e1rio e, mui especialmente,  advogados.<\/p>\n<p>Falo com sossego.<\/p>\n<p>Afinal, ap\u00f3s o meu mestrado, fui aprovado mais de quatro vezes em  concursos no Brasil e na Europa e defendi minha tese de Doutorado em  Direito Internacional e Integra\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica na Universidade do Estado  do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, disse eu: tese de Doutorado! Esse nome n\u00e3o se aplica aos  trabalhos de gradua\u00e7\u00e3o, de especializa\u00e7\u00e3o e de mestrado. E nenhuma pe\u00e7a  judicial pode ser chamada de tese, com dec\u00eancia e honestidade.<\/p>\n<p>Escrevi mais de trezentos artigos, pareceres (n\u00e3o simples cotas),  ensaios e livros. Uma verifica\u00e7\u00e3o no s\u00edtio eletr\u00f4nico do Conselho  Nacional de Pesquisa (CNPq) pode compravar o que digo. Tudo devidamente  publicado no Brasil, na Dinamarca, na Alemanha, na It\u00e1lia, na Fran\u00e7a,  Su\u00e9cia, M\u00e9xico. N\u00e3o chamo nenhum destes trabalhos de tese, a n\u00e3o ser  minha sofrida tese de Doutorado.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s anos como Advogado, eleito para o Instituto dos Advogados  Brasileiros (poucos s\u00e3o), tendo ocupado comiss\u00f5es como a de Reforma do  Poder Judici\u00e1rio e de Direito Comunit\u00e1rio e ap\u00f3s presidir a Associa\u00e7\u00e3o  Americana de Juristas, resolvi ingressar no Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o  para atuar especialmente junto \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos Direitos Fundamentais dos  Trabalhadores p\u00fablicos e privados e na defesa dos interesses de toda a  Sociedade. E assim o fiz: passei em quarto lugar nacional, terceiro  lugar para a regi\u00e3o Sul\/Sudeste e em primeiro lugar no Estado de S\u00e3o  Paulo. Ap\u00f3s r\u00e1pida passagem por Campinas, insisti com o Procurador-Geral  em Bras\u00edlia e fiz quest\u00e3o de vir para Mogi das Cruzes.<\/p>\n<p>Em nossa Procuradoria, Doutor \u00e9 s\u00f3 quem tem t\u00edtulo acad\u00eamico. L\u00e1 est\u00e1 estampado na parede para todos verem.<\/p>\n<p>E n\u00e3o teve ningu\u00e9m que reclamasse; porque, ali\u00e1s, como disse linhas  acima, foi a pr\u00f3pria Ordem dos Advogados do Brasil quem assim  determinou, conforme as decis\u00f5es seguintes do Tribunal de \u00c9tica e  Disciplina: Processos: E-3.652\/2008; E-3.221\/2005; E-2.573\/02;  E-2067\/99; E-1.815\/98.<\/p>\n<p>Em resumo, dizem as decis\u00f5es acima: n\u00e3o pode e n\u00e3o deve exigir o  tratamento de Doutor ou apresentar-se como tal aquele que n\u00e3o possua  titula\u00e7\u00e3o acad\u00eamica para tanto.<\/p>\n<p>Como eu costumo matar a cobra e matar bem matada, segue endere\u00e7o oficial na Internet para consulta sobre a Lei Imperial:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/revista\/Rev_63\/Lei_1827.htm\" target=\"none\">www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/revista\/Rev_63\/Lei_1827.htm <\/a><\/p>\n<p>Os profissionais, sejam quais forem, t\u00eam de ser respeitados pelo que  fazem de bom e n\u00e3o arrogar para si tratamento ao qual n\u00e3o fa\u00e7am jus.  Isso vale para todos. Mas para os profissionais do Direito \u00e9 mais s\u00e9ria a  recomenda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Afinal, cumprir a lei e concretizar o Direito \u00e9 nossa fun\u00e7\u00e3o.  Respeitemos a lei e o Direito, portanto; estudemos e, a\u00ed assim, exijamos  o tratamento que conquistarmos. Mas s\u00f3 ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">PROF. DR. MAR\u00c7O ANT\u00d4NIO RIBEIRO TURA ,  41 anos, jurista. Membro vital\u00edcio do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o.  Doutor em Direito Internacional e Integra\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica pela Universidade  do Estado do Rio de Janeiro. Mestre em Direito P\u00fablico e Ci\u00eancia  Pol\u00edtica pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professor  Visitante da Universidade de S\u00e3o Paulo. Ex-presidente da Associa\u00e7\u00e3o  Americana de Juristas, ex-titular do Instituto dos Advogados Brasileiros  e ex-titular da Comiss\u00e3o de Reforma do Poder Judici\u00e1rio da Ordem dos  Advogados do Brasil.<\/p>\n<p>Fonte: http:\/\/www.jusbrasil.com.br\/noticias\/1682209\/doutor-e-quem-faz-doutorado<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No momento em que n\u00f3s do Minist\u00e9rio P\u00fablico da Uni\u00e3o nos preparamos para atuar contra diversas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior por conta do n\u00famero m\u00ednimo de mestres e doutores, eis que surge (das cinzas) a velha arenga de que o formado em Direito \u00e9 Doutor. 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