{"id":232831,"date":"2013-07-30T02:16:32","date_gmt":"2013-07-30T05:16:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/?page_id=232831"},"modified":"2013-07-30T02:16:32","modified_gmt":"2013-07-30T05:16:32","slug":"duas-visoes-do-funk","status":"publish","type":"page","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/duas-visoes-do-funk","title":{"rendered":"Duas vis\u00f5es do funk"},"content":{"rendered":"<h2>Baixaria comercial<\/h2>\n<p>Por Rui Variani<\/p>\n<p>Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constata\u00e7\u00e3o: t\u00e1 dominado, t\u00e1 tudo dominado!!! S\u00f3 d\u00e1 funk! O &#8220;neo forr\u00f3&#8221; tenta uma rea\u00e7\u00e3o, mas suas letras n\u00e3o s\u00e3o cafajestes e n\u00e3o trazem a &#8220;alegria compuls\u00f3ria&#8221; que o brasileiro tanto gosta. A\u00ed n\u00e3o d\u00e1, n\u00e9, p\u00f4?! Como \u00e9 que o cara quer fazer sucesso sem tratar mulher como lixo?! Esses forrozeiros, vou te contar&#8230; A ind\u00fastria do CD pirata vai tratar de enfraquecer esse neg\u00f3cio, mas o jab\u00e1 e a televis\u00e3o Devem insistir na onda por um bom tempo. Xuxa, Luciano Huck, Raul Gil, Gugu, enfim, toda essa gente boa vai se virar pra ganhar em cima.<\/p>\n<p>A Bandeirantes at\u00e9 j\u00e1 vai lan\u00e7ar um programa semanal com duas horas de dura\u00e7\u00e3o dedicado ao funk. Isso, claro, at\u00e9 o &#8220;Tigr\u00e3o&#8221;, a mente por tr\u00e1s do &#8220;movimento&#8221;, ser domesticado, o que, em termos mercadol\u00f3gicos, significa botar um terninho e gravar uma babinha pra novela das oito da Globo.<\/p>\n<p>O &#8220;Tigr\u00e3o&#8221;, ali\u00e1s, deu uma elucidativa entrevista pra revista VIP de mar\u00e7o. Eu digo elucidativa, pois ele dissipa a n\u00e9voa de ignor\u00e2ncia (por parte do p\u00fablico) que encobria alguns aspectos do &#8220;movimento&#8221;. Vejamos: em determinado trecho da entrevista, &#8220;Tigr\u00e3o&#8221; diz: &#8220;&#8230;As pessoas gostam desse erotismo. Mas, se voc\u00ea analisar, as letras nem s\u00e3o t\u00e3o pesadas. Elas t\u00eam duplo sentido, at\u00e9 porque o p\u00fablico infantil ouve funk&#8221;. Muitas coisas interessantes nessas senten\u00e7as! Ent\u00e3o vamos por partes: &#8220;&#8230;se voc\u00ea analisar, as letras nem s\u00e3o t\u00e3o pesadas&#8221;. Eu analisei e ele est\u00e1 certo. Quem, em s\u00e3 consci\u00eancia, poderia achar pesada a letra do funk &#8220;M\u00e1quina de Sexo&#8221;, que diz: &#8220;M\u00e1quina de sexo, eu transo igual a um animal \/ A Chatuba de Mesquita do bonde do sexo anal \/ Chatuba come cu e depois come xereca \/ Ranca caba\u00e7o, \u00e9 o bonde dos careca&#8221;? Note-se a leveza de termos como &#8220;sexo anal&#8221;, &#8220;cu&#8221;, &#8220;xereca&#8221; (!) e &#8220;caba\u00e7o&#8221;. &#8220;Elas t\u00eam duplo sentido&#8230;&#8221;. Procurei demais e n\u00e3o achei o duplo sentido no funk &#8220;Barraco III&#8221;: &#8220;Me chama de cachorra, que eu fa\u00e7o au-au \/ Me chama de gatinha, que eu fa\u00e7o miau \/ Goza na cara, goza na boca \/ goza onde quiser&#8221;. Ah, agora entendi! &#8220;Goza na cara&#8221; \u00e9 porque o cara ficava tirando sarro da menina pelas Costas. A\u00ed ela diz &#8220;Goza na cara!&#8221;. Que coisa&#8230; &#8220;&#8230;at\u00e9 porque o p\u00fablico infantil ouve funk&#8221;. Eis uma verdade e a preocupa\u00e7\u00e3o do &#8220;Tigr\u00e3o&#8221; se justifica. Foi pensando nas crian\u00e7as que o garoto Jonathan, de 7 anos (ele mal tem coordena\u00e7\u00e3o motora para reproduzir a coreografia) foi incentivado a gravar o funk &#8220;Jonathan II&#8221;, de edificante letra: &#8220;De segunda a sexta, esporro na escola \/ S\u00e1bado e domingo, eu solto pipa e jogo bola \/ Mas eu j\u00e1 estou crescendo com muita emo\u00e7\u00e3o \/ E eu j\u00e1 vou pegar um fil\u00e9 com popoz\u00e3o&#8221;. 7 anos!!! 7 anos!!! P\u00f4, foi mal&#8230; A culpa \u00e9 minha, gente grande, feia e besta, que n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, vamos l\u00e1, repetir o discurso de dez em cada dez apresentadores de programas femininos e de audit\u00f3rio: todo mundo junto, um, dois, tr\u00eas e j\u00e1: &#8220;A mal\u00edcia est\u00e1 na cabe\u00e7a do adulto, a crian\u00e7a s\u00f3 quer se divertir. Onde j\u00e1 se viu, se preocupar com uma coisa dessas. Das crian\u00e7as que passam fome na rua ningu\u00e9m fala nada&#8230;&#8221;. Aplausos entusiasmados e urros de apoio, por parte do audit\u00f3rio. \u00c9 bom que se diga que as crian\u00e7as que passam fome nas ruas s\u00e3o um s\u00e9rio problema social, cuja resolu\u00e7\u00e3o deve ser uma das prioridades m\u00e1ximas de qualquer governo (detalhe sem import\u00e2ncia: os funks da moda n\u00e3o passam nem perto dessa quest\u00e3o. Mas, beleza, vamos l\u00e1&#8230;). S\u00f3 que \u00e9 um problema do governo, a gente n\u00e3o tem nada com isso, n\u00e3o \u00e9 mesmo? Ao inv\u00e9s disso, vamos dar risada e incentivar o moleque de 7 anos (7 anos!!!) a &#8220;pegar um fil\u00e9 com popoz\u00e3o&#8221;. Afinal, nunca \u00e9 cedo demais pra mostrar pro papai que se \u00e9 um garanh\u00e3o, que n\u00e3o deixa passar nenhuma cachorra. Isso \u00e9 que \u00e9 uma inf\u00e2ncia saud\u00e1vel! E pensar que eu perdi tanto tempo assistindo &#8220;Bambalal\u00e3o&#8221;, &#8220;S\u00edtio do Pica-Pau Amarelo&#8221; e ouvindo aqueles discos da &#8220;Turma do Bal\u00e3o M\u00e1gico&#8221;. Ao inv\u00e9s disso podia estar por a\u00ed, transando umas cachorras&#8230; Enquanto a gente d\u00e1 risada, a molecada vai crescendo com a certeza de que mulher n\u00e3o passa de uma bunda e um par de peitos siliconados, que gosta de ser chamada de cachorra e que acha que s\u00f3 um tapinha n\u00e3o d\u00f3i. Se &#8220;s\u00f3 um tapinha n\u00e3o d\u00f3i&#8221;, o primeiro deveria ser dado no popoz\u00e3o dos tigrinhos e cachorrinhas que curtem essas coisas. Depois a gente n\u00e3o entende o motivo do aumento dos \u00edndices de viol\u00eancia contra a mulher e porque ela \u00e9 t\u00e3o desrespeitada na Sociedade. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 \u00f3bvio? Voc\u00ea, cadela&#8230; quero dizer, mulher que est\u00e1 lendo isso, levante-se e lute! N\u00e3o seja uma cachorra! Um tapinha d\u00f3i, sim! Exija respeito antes que n\u00f3s, homens, acreditemos que \u00e9 isso mesmo que voc\u00eas querem. Deponham as Xuxas, Carlas Perez, Feiticeiras, Tiazinhas, Enfermeiras, Intern\u00e9ticas, Vampiras, Fernandas Abreu e Vanessinhas Pikachu de seus reinados de mis\u00e9ria intelectual! Conto com voc\u00eas!!! E lembrem-se sempre da cada vez mais pertinente frase de Oscar Wilde: &#8220;Todo crime \u00e9 vulgar, assim como toda vulgaridade \u00e9 criminosa.&#8221; Ainda, no livro Cabe\u00e7a de Negro de Paulo Francis havia um coment\u00e1rio acerca do que seria quando o morro descesse para a avenida&#8230; Parece que o tempo \u00e9 agora! A barb\u00e1rie impera!<\/p>\n<hr noshade=\"noshade\" size=\"1\" \/>\n<h2>Em resposta a &#8220;Baixaria Comercial&#8221;<\/h2>\n<p>Por Marlon Xavier<\/p>\n<p>Realmente, a explora\u00e7\u00e3o comercial e, em termos musicais, a qualidade das m\u00fasicas do funk &#8220;batid\u00e3o&#8221; carioca deixa muito a desejar e a discutir. Mas alguns aspectos merecem ser salientados, em contraponto \u00e0 tua cr\u00edtica. Primeiro, o funk representa aqui que o rap \u00e9 (ou era) nos USA: uma organiza\u00e7\u00e3o fora das grandes gravadoras (o que aqui realmente est\u00e1 mudando, infelizmente&#8230;), com bandas e bondes etc gravando, sendo conhecidas nos bailes e em suas comunidades. Uma coisa meio ca\u00f3tica, j\u00e1 que v\u00e1rios artistas gravam a mesma coisa, utilizam samples de tudo que \u00e9 coisa (sem royalties, please) &#8211; um pouco no mesmo esp\u00edrito louco do samba antigo. Quem falou sobre isso foram os caras da Comunidade NinJitsu, num programa da Ipanema FM Porto Alegre. Uma das conclus\u00f5es tamb\u00e9m que d\u00e1 pra tirar \u00e9 que todo esse espalhafato, al\u00e9m de promover mercadologicamente a m\u00fasica, s\u00f3 acontece porque o funk foi tirado do gueto &#8211; quando as festas para milhares de pessoas eram restritas aos habitantes do gueto, da vila, e n\u00e3o se abria para patricinhas da Barra, ningu\u00e9m ouvia falar de discuss\u00f5es das letras e supostos chauvinismo, misoginia ou domina\u00e7\u00e3o que elas pudessem conter. Discutia-se, isso sim, a viol\u00eancia que anteriormente dominava esses bailes, entre Lado A e Lado B (nome do disco do Rappa, lembram), mas essa discuss\u00e3o era geralmente vinculada a uma postura de fundo tipo &#8220;esses pobres, primitivos, b\u00e1rbaros, tem mais \u00e9 que se matarem mesmo&#8221;&#8230; Os motivos sociol\u00f3gicos de tais acontecimentos v\u00e3o muito mais fundo do que geralmente \u00e9 falado. O mesmo acontece com adolescentes alem\u00e3es e americanos de classe m\u00e9dia alta&#8230; As letras s\u00e3o pesadas. E da\u00ed? Sade \u00e9 &#8220;pesado&#8221; e foi um maiores escritores da humanidade. NWA e Snoop Dogg tem versos como &#8220;I shot the bitch \/ one less bitch I gotta worry about&#8221; e &#8220;you can juggle with these motherfuckin nuts in your mouth&#8221; e atingem o primeiro lugar da Billboard. Ou seja: tais manifesta\u00e7\u00f5es &#8220;art\u00edsticas&#8221; acontecem por algum motivo, e, o que \u00e9 mais importante, s\u00e3o consumidas e adoradas por algum motivo tamb\u00e9m. A deprava\u00e7\u00e3o dos costumes? Ela tamb\u00e9m acontece por alguma raz\u00e3o, e n\u00e3o \u00e9 por uma maldade inata do ser humano como queria Freud. Realmente, a mal\u00edcia est\u00e1 na cabe\u00e7a da crian\u00e7a tamb\u00e9m, n\u00e3o s\u00f3 na do adulto, e cada vez mais. Mas porque sexualiza-se a crian\u00e7a cada vez mais cedo??? Nunca v\u00ed algu\u00e9m dar uma raz\u00e3o pra isso. Fatores de mercado? Ora, h\u00e1 pouco os fatores de mercado estabeleceram (pelo menos segundo a porcaria da Veja) que a virgindade &#8211; sim, a virgindade, que no tempo de nossos av\u00f3s tinha aquela aura&#8230; &#8211; era o novo valor a ser cultuado, com adolescentes atrolhando cl\u00ednicas de reconstitui\u00e7\u00e3o de h\u00edmen. Em suma, como em toda essa est\u00f3ria, a discuss\u00e3o \u00e9 muito mais complicada do que aparece na m\u00eddia ( e no teu texto).<\/p>\n<p>Quantos aos autores que citas, o pr\u00f3prio Oscar Wilde foi perseguido e preso exatamente pelos mesmos motivos que o funk o \u00e9 nos dias de hoje: deprava\u00e7\u00e3o sexual e atentado aos bons costumes (era homossexual e se enrolou de vez ao ter casos com menores de idade e gente da nobreza). Mal comparando, pois Wilde obviamente representava uma amea\u00e7a muito maior para a aristocracia inglesa por conta de sua po\u00e9tica virulenta (em outras palavras, n\u00e3o estou comparando o talento de um Wilde &#8211; ou Sade &#8211; com um Tigr\u00e3o&#8230;). Por outro lado, Paulo Francis foi um jornalistas mais rea\u00e7as que j\u00e1 li, racista assumido &#8211; e vira-casaca, j\u00e1 que de pseudo-socialista passou a New Yorker burgu\u00eas at\u00e9 a medula, idolatrando Donna Karan como se fosse Gore Vidal. Preferiria, nessa discussao de tapinha n\u00e3o d\u00f3i, citar Nelson Rodrigues, muito mais conhecedor da alma do brasileiro do que Francis&#8230; As pr\u00f3prias mulheres gostam dessa est\u00f3ria de tapinha, de outra forma n\u00e3o a cantariam; o funk idolatra, de certa forma, o culto ao corpo &#8211; de homens e mulheres, t\u00edpico do Rio &#8211; mas n\u00e3o representa necessariamente uma domina\u00e7\u00e3o masculina de cima pra baixo. Essa \u00e9 uma quest\u00e3o velha, que feministas empedernidas adoram citar para podar manifesta\u00e7\u00f5es mais kinky &#8211; mais uma vez, de ambos, homens e mulheres. A domina\u00e7\u00e3o existe dos dois lados &#8211; leia coisas como os depoimentos dos homens americanos em Relat\u00f3rio Hyte, ou mesmo Kinsey, e ver\u00e1 que mesmo nos anos 60 a coisa n\u00e3o era bem assim. Enfim, o que tento criticar \u00e9 a tend\u00eancia de, a cada vez que uma manifesta\u00e7\u00e3o cultural dessas aparece, tentar reprimi-la ou rotul\u00e1-la de pobre ou vulgar ou coisa do genero &#8211; perdendo assim uma oportunidade de discutir por que o contexto de nossa sociedade, nossos valores (valores que compartilhas fervorosamente) etc produzem tais manifesta\u00e7\u00f5es. Ou seja: a culpa \u00e9 nossa tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Baixaria comercial Por Rui Variani Acabo de voltar do carnaval na praia, onde fiz uma triste constata\u00e7\u00e3o: t\u00e1 dominado, t\u00e1 tudo dominado!!! S\u00f3 d\u00e1 funk! O &#8220;neo forr\u00f3&#8221; tenta uma rea\u00e7\u00e3o, mas suas letras n\u00e3o s\u00e3o cafajestes e n\u00e3o trazem a &#8220;alegria compuls\u00f3ria&#8221; que o brasileiro tanto gosta. A\u00ed n\u00e3o d\u00e1, n\u00e9, p\u00f4?! Como \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","template":"","meta":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/232831"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=232831"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/232831\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":232832,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/232831\/revisions\/232832"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=232831"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}