{"id":1347,"date":"2003-04-15T13:03:16","date_gmt":"2003-04-15T16:03:16","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T03:00:00","slug":"","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/1347","title":{"rendered":"O verdadeiro interessado"},"content":{"rendered":"<p>Recebi <a href=\\\"http:\/\/www.baguete.com.br\/coluna.php?id=226816&#038;nome=janercristaldo\\\">esse artigo<\/a> por email e creio que ele merece o <i>copy&#038;paste<\/i> integral:<\/p>\n<blockquote><p>\n<b>Anslinger e o Narcotr\u00e1fico<\/b>  <\/p>\n<p>(*) Janer Cristaldo<\/p>\n<p>14\/04\/2003<\/p>\n<p>Vim para S\u00e3o Paulo h\u00e1 doze anos. De in\u00edcio, morei em Santa Cec\u00edlia. Como de h\u00e1bito, ao chegar em uma cidade, vou estabelecendo meus la\u00e7os com o que chamo de minha base operacional: a mo\u00e7a da quitanda, o barbeiro, os taxistas, os donos de bar e os gar\u00e7ons do bairro. Desde logo fiquei sabendo que, numa esquina pr\u00f3xima, uma quadrilha de nigerianos traficava desde maconha a coca\u00edna. A quadrilha s\u00f3 foi descoberta pela pol\u00edcia paulistana &#8230; no ano passado. Os nigerianos chegaram a montar uma boate, de nome M\u00e1fia Siciliana, j\u00e1 sugerindo algo ao cliente potencial. A espelunca era gerida por uma siciliana, casada com um dos traficantes.<\/p>\n<p>Eu, que n\u00e3o cheiro nem fumo, sabia h\u00e1 mais de d\u00e9cada que naquela esquina corria frouxo o tr\u00e1fico de drogas. Diga-se de passagem, ningu\u00e9m no bairro ignorava o fato. Ningu\u00e9m exceto a pol\u00edcia, que s\u00f3 foi saber da coisa uma d\u00e9cada depois. Com estardalha\u00e7o de imprensa, prenderam a siciliana e os nigerianos. Presos os traficantes, segundo minha base operacional, o tr\u00e1fico continua normal no peda\u00e7o. O bairro tem v\u00e1rias escolas a abastecer, uma justo em frente \u00e0 M\u00e1fia Siciliana, que continua aberta como se nada tivesse acontecido. Afinal, ningu\u00e9m pretende que os colegiais passem por crises de abstin\u00eancia. E ainda h\u00e1 quem julgue que, com a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia, se pode acabar com as drogas.<\/p>\n<p>Come\u00e7a-se a falar no Brasil, pela primeira vez no alto escal\u00e3o da Rep\u00fablica, em descriminaliza\u00e7\u00e3o das drogas. S\u00f3 depois de terem sido assassinados dois ju\u00edzes, autoridades chegam \u00e0 brilhante conclus\u00e3o: sendo a droga compr\u00e1vel em farm\u00e1cias, esvazia-se do dia para a noite este poder formid\u00e1vel do tr\u00e1fico, que j\u00e1 criou bantust\u00f5es independentes no Estado do Rio. O imp\u00e9rio da droga no Brasil \u00e9 muito mais vasto que o das FARC na Col\u00f4mbia, e ainda h\u00e1 quem se pergunte se n\u00e3o estar\u00edamos entrando em uma fase de \\&#8221;colombianiza\u00e7\u00e3o\\&#8221;. Ora, na Col\u00f4mbia as FARC t\u00eam um territ\u00f3rio definido, separado do que resta do Estado de Direito. Aqui, o tr\u00e1fico est\u00e1 entranhado no Estado, tem agentes na pol\u00edcia, deputados no congresso e ministros no Judici\u00e1rio. A guerrilha marxista da Col\u00f4mbia jamais sonharia tanto. <\/p>\n<p>A descriminaliza\u00e7\u00e3o \u2013 que a imprensa prefere chamar de descrimina\u00e7\u00e3o, como se o verbo criminalizar n\u00e3o existisse em portugu\u00eas \u2013 al\u00e9m de ser a solu\u00e7\u00e3o \u00f3bvia ao problema, \u00e9 a \u00fanica. Sem a ilicitude da droga, os lucros fabulosos do tr\u00e1fico viram p\u00f3, sem trocadilho. Alguns pa\u00edses europeus, mais pragm\u00e1ticos, h\u00e1 muito adotaram esta pol\u00edtica. No in\u00edcio dos 70, quando eu vivia em Estocolmo, o Estado oferecia locais especiais para quem quisesse curtir seu baseado. Havia bares para maiores de idade e para menores. Jornalista, visitei esses bares, onde uma juventude endinheirada e enfastiada se comprazia em olhar, ora para o vazio, ora para o pr\u00f3prio umbigo. Visitei os bares para maiores de idade, bem entendido. Nos destinados a menores, fui barrado na porta pela pol\u00edcia. Neles, s\u00f3 menores podiam drogar-se. Hoje, trinta anos depois, n\u00e3o temos not\u00edcia alguma de que o tr\u00e1fico controle cidades na Su\u00e9cia. Ao controlar o consumo, o Estado controlava o tr\u00e1fico. Esta mesma pol\u00edtica h\u00e1 muito vem sendo adotada na Holanda, B\u00e9lgica, Su\u00ed\u00e7a, Espanha e, mais recentemente, em Portugal. <\/p>\n<p>Com a facilidade de acesso \u00e0s drogas teremos mais drogados, objetam almas mais cautas. Mais acesso do que se tem hoje? Se voc\u00ea quiser droga \u00e9 s\u00f3 descer at\u00e9 a rua e logo a encontra. S\u00f3 a pol\u00edcia n\u00e3o consegue encontr\u00e1-la, e para isso ter\u00e1 gordas raz\u00f5es. Em mercados mais sofisticados como Rio e S\u00e3o Paulo, s\u00e3o comuns os disque-drogas, pelos quais voc\u00ea pode encomend\u00e1-las por telefone e esperar pela entrega no aconchego de seu lar. Para isto existe a telefonia: para seu conforto. Como o tr\u00e1fico n\u00e3o \u00e9 insens\u00edvel \u00e0s novas tecnologias, hoje voc\u00ea j\u00e1 pode encomendar suas doses de para\u00edso artificial at\u00e9 mesmo pela Internet.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m quem objete: com a droga em farm\u00e1cias teremos mais mortes. Ora, sem drogas em farm\u00e1cia os drogados est\u00e3o morrendo da mesma forma. Que mais n\u00e3o seja, as farm\u00e1cias t\u00eam as prateleiras lotadas de produtos que matam. Bares e restaurantes tamb\u00e9m. Tabagismo mata, e o presidente da Rep\u00fablica pisa em cima do Congresso e autoriza a publicidade do cigarro. \u00c1lcool em excesso mata, como tamb\u00e9m o a\u00e7\u00facar mata, e n\u00e3o vamos cogitar de proibir o \u00e1lcool ou o a\u00e7\u00facar. Tr\u00e2nsito mata aos milhares e a publicidade do autom\u00f3vel prova por A mais B que, se voc\u00ea n\u00e3o tem um autom\u00f3vel, voc\u00ea n\u00e3o vale um vint\u00e9m como ser humano. Se a libera\u00e7\u00e3o da droga produzir algumas mortes a mais, paci\u00eancia! Cada cidad\u00e3o tem direito a escolher sua morte preferida. A bem da verdade, at\u00e9 picanha gorda mata, e nem por isso vamos proibir o churrasco. Para quem quer morrer depressa, o mercado \u00e9 pr\u00f3digo em op\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por que a maconha \u00e9 hoje um mercado milion\u00e1rio? Tudo isso porque um certo Mr. Harry Anslinger, diretor do Federal Bureau of Narcotics \u2013 daquele mesmo pa\u00eds que nos exporta c\u00e2ncer como atributo do \\&#8221;homem que sabe o que quer\\&#8221; \u2013 tendo fracassado em sua luta contra o \u00e1lcool nos anos 30, decidiu demonizar o c\u00e2nhamo. Entre 1930 e 1934, o Bureau compilou uma s\u00e9rie de desinforma\u00e7\u00f5es sugerindo que o uso da marijuana estava diretamente ligado ao crime, a comportamentos violentos e provocava loucura. Em 35, o pa\u00eds foi inundado com propaganda contra o uso da erva. Em 1937, o Marihuana Tax Act restringia o uso da maconha, o que implicava restri\u00e7\u00f5es ao cultivo do c\u00e2nhamo. Com isso, livrava a ind\u00fastria do papel da amea\u00e7a de um papel produzido a partir da Canabis sativa.<\/p>\n<p>Bons macacos, engolimos a legisla\u00e7\u00e3o gringa. Sob o olhar complacente do governo, brindamos nosso organismo com c\u00e2nceres e enfisemas. Gra\u00e7as \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o da maconha, permitimos aos \\&#8221;exclu\u00eddos\\&#8221; das favelas a constru\u00e7\u00e3o de um Estado paralelo, hoje com mais poderes que a guerrilha colombiana. Conhecesse um pouco da hist\u00f3ria recente, a bandidagem brasileira deveria erguer um monumento a Harry Anslinger, este benem\u00e9rito incentivador do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p><i>(*) Cristaldo \u00e9 jornalista, escritor e tradutor e vive em S\u00e3o Paulo.<\/i>\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de achar o pen\u00faltimo par\u00e1grafo meio confuso, faltando algumas cisas, concordo com tudo que ele escreveu a\u00ed, principalmente que o maior interessado na proibi\u00e7\u00e3o das drogas \u00e9 o pr\u00f3prio traficante. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi esse artigo por email e creio que ele merece o copy&#038;paste integral: Anslinger e o Narcotr\u00e1fico (*) Janer Cristaldo 14\/04\/2003 Vim para S\u00e3o Paulo h\u00e1 doze anos. 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