{"id":1653,"date":"2003-09-08T02:15:14","date_gmt":"2003-09-08T05:15:14","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T03:00:00","slug":"","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/1653","title":{"rendered":"Estado viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><center><img src=\\\"http:\/\/www.pilger.com.br\/charles\/imagens\/blog\/bahia07092003.jpg\\\" border=\\\"0\\\" alt=\\\"\\\" \/><\/center> <\/p>\n<p>A foto acima \u00e9 da capa de hoje do jornal baiano <a href=\\\"http:\/\/www.atarde.com.br\/\\\">A Tarde<\/a>. Mostra a a\u00e7\u00e3o covarde e violenta da pol\u00edcia baiana que culminaram no espancamento de estudantes nesse sete de setembro. Deixo aqui registrado uma c\u00f3pia da <a href=\\\"http:\/\/www.atarde.com.br\/materia.php3?id_materia=1169&#038;ano=2003&#038;mes=09&#038;id_subcanal=17\\\">mat\u00e9ria<\/a> que saiu no jornal:<\/p>\n<blockquote><p>\n<b>Dizem que ela existe pra proteger<\/b> <\/p>\n<p>Parecia que o 7 de Setembro acabaria na paz. Mas algo estava por acontecer. Era 12h30 quando eu e a colega Neyse Limma fomos \u00e0 Pra\u00e7a Municipal. L\u00e1, uns 500 estudantes reunidos, na escadaria da Prefeitura, discutiam se bloqueavam ruas ou n\u00e3o pagavam passagem. <\/p>\n<p>Na verdade, eles compareceram para detonar a parte oficialesca da festa, mas n\u00e3o se misturaram de vera \u00e0 Marcha dos Exclu\u00eddos. \u201cAssembl\u00e9ia\u201d rolando, helic\u00f3ptero da Choque vaiado, tudo normal at\u00e9 a\u00ed. Quando chega um bando de mais ou menos 50 PMs e toma o local. <\/p>\n<p>A meninada, provocativa, entoa \u201cmarcha soldado, cabe\u00e7a de papel&#8230;\u201d para emendar na seq\u00fc\u00eancia, \u201cpol\u00edcia \u00e9 pra ladr\u00e3o, pra estudante n\u00e3o\u201d. Com os PMs ali, a galera come\u00e7ou a debandar. Perguntamos para um deles o destino: \u201cLapa, entrar de gra\u00e7a no \u00f4nibus\u201d. Seguimos de carro. <\/p>\n<p>Mal chegamos, vinham uns 50, apitando e pulando euf\u00f3ricos. Acompanhamos o movimento. Desceram para o subsolo da esta\u00e7\u00e3o, onde est\u00e3o as linhas da periferia. Tentaram parar um Cajazeira X, mas o motorista fechou as portas. \u201cSe f&#8230;, estudante apareceu\u201d, era o grito de guerra.<\/p>\n<p>De forma muita r\u00e1pida decidem bloquear a pista na entrada da Lapa. Guardamos o crach\u00e1 de identifica\u00e7\u00e3o (\u00e0s vezes a presen\u00e7a da imprensa determina o rumo dos acontecimentos) e descemos com o grupo. No meio do caminho, descem PMs com \u201ccara de mau\u201d de viaturas. Um deles at\u00e9 empurrou um colega jornalista, Luciano Matos, que n\u00e3o estava trabalhando mas caminhava ao nosso lado. A massa adolescente engrossa em n\u00famero.<\/p>\n<p><b>Covardia<\/b> \u2013 Parecia mesmo que a coisa ia explodir. Presenciamos a distribui\u00e7\u00e3o de cassetetes. A essa altura, a meninada estava barrando a passagem de \u00f4nibus no Vale dos Barris. Corremos para ver qual seria o movimento. Os PMs chegam com vontade de bater. Perseguem uma estudante que est\u00e1 com uma c\u00e2mara digital na m\u00e3o. Um PM determina que ela entregue o equipamento, o que \u00e9 negado. Come\u00e7a a pancadaria. <\/p>\n<p>O policial derruba a garota no ch\u00e3o, puxa seu cabelo. \u201cCrach\u00e1 na cara deles!\u201d, gritei. Mas ele, agora acompanhado de outro, continua: batem com cassetete, um deles pisa nela. Imagine a cena, \u00e9 revoltante. Neyse tenta impedir a agress\u00e3o. Outros estudantes s\u00e3o perseguidos e recebem cacetadas. Os policiais come\u00e7am a retirar a identifica\u00e7\u00e3o da farda.<\/p>\n<p>Outro policial persegue um estudante apontando um revolver em sua dire\u00e7\u00e3o. Todo mundo viu. N\u00e3o h\u00e1 argumentos que justifiquem a atitude da pol\u00edcia. Atravesso a avenida porque tem tr\u00eas policiais batendo num cara que carrega uma c\u00e2mera fotogr\u00e1fica. <\/p>\n<p>Nervosa, levanto o crach\u00e1 e grito: \u201cImprensa, Jornal A Tarde. Eu t\u00f4 vendo tudo\u201d. Um PM mete o p\u00e9 na parte superior da minha coxa. Agress\u00e3o \u00e0 imprensa. Num gesto de desespero, o fot\u00f3grafo Juarez de Ara\u00fajo joga a c\u00e2mera pra mim (\u00e9 dele a foto da capa). Mas a m\u00e1quina cai. Outros policiais chutam e partem pra cima. Um garoto consegue reav\u00ea-la e sai correndo. Talvez preocupados com a imprensa, os policiais param de bater. <\/p>\n<p>Cinco viaturas paradas. Tento falar com o comandante da opera\u00e7\u00e3o, major Couto, mas ele se nega a responder: \u201cAgora n\u00e3o d\u00e1 pra falar\u201d. Queria saber quem foi que mandou bater nos adolescentes, repetindo a mesma atitude do 16 de maio de 2000, quando a Choque e PM deram porrada em estudantes que se manifestavam em favor da cassa\u00e7\u00e3o do senador Antonio Carlos Magalh\u00e3es. Eu tamb\u00e9m tava l\u00e1.<\/p>\n<p>Mas a resposta quem me d\u00e1 \u00e9 Luciano Matos: \u201cUm policial sem a tarja de identifica\u00e7\u00e3o disse: s\u00e3o ordens expressas do governador\u201d. Os estudantes n\u00e3o sabem o que fazer, est\u00e3o tensos. Dois meninos detidos e levados para a 1\u00aa Delegacia da Policia Civil, no Complexo dos Barris.<\/p>\n<p>A Choque \u00e9 acionada. Chega o tenente coronel Gondim tentando negociar. Ele diz para os estudantes, eu ou\u00e7o e anoto: \u201cVoc\u00eas t\u00eam que entender que n\u00e3o v\u00e3o ocupar a pista. Se n\u00e3o sa\u00edrem por bem, a gente vai agir\u201d. Os meninos n\u00e3o sabem o que dizer. Decidem ir at\u00e9 a 1\u00aa Delegacia para onde foram levados os colegas. Vamos junto. A imprensa ainda n\u00e3o pode entrar, diz um tenente da Choque. <\/p>\n<p>Um dos meninos detidos, Lucas Alberto, aparece com dois PMs e \u00e9 colocado no cambur\u00e3o. Pra onde vai? \u201cPro Beiru\u201d, responde o policial. A viatura parte a mil. Os estudantes est\u00e3o aglomerados defronte da delegacia. Quinze horas. Come\u00e7a a chover. Press\u00e1gio, talvez, de que hoje o tempo vai fechar.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>E igualmente revoltante \u00e9 o <a href=\\\"http:\/\/www.atarde.com.br\/materia.php3?id_materia=1165&#038;ano=2003&#038;mes=09&#038;id_subcanal=17\\\">depoimento<\/a> da estudante que foi atacada por tirar fotos:<\/p>\n<blockquote><p>\n<b>Estudante agredida avisa: \u201cAmanh\u00e3 eu volto \u00e0 rua\u201d<\/b> <\/p>\n<p>\u201cHoje eu vou estravasar!\u201d Essa foi a frase que Diana Neuma Santos de Sant\u2019Anna ouviu da boca do soldado Fernando, da 41\u00aaCP, minutos antes de come\u00e7ar a pancadaria na Esta\u00e7\u00e3o da Lapa, da qual foi protagonista. A menina, de 17 anos, estudante do segundo semestre de Hist\u00f3ria da Universidade Cat\u00f3lica de Salvador, foi o piv\u00f4 da confus\u00e3o entre policiais militares e estudantes que se manifestavam em mais um dia de protesto, em pleno 7 de setembro. Tudo porque ela filmava as cenas de trucul\u00eancia dos policiais que decidiram, neste domingo, partir para a ignor\u00e2ncia. <\/p>\n<p>\u201cEles j\u00e1 chegaram empurrando, com o cassetete na m\u00e3o, provocando os estudantes\u201d, narra Diana, j\u00e1 em casa e depois de passar por um exame de corpo de delito. Para a menina, que, apesar de tudo, continuava sorridente e altiva, os policiais aproveitaram o domingo, feriado, \u201ccom pouca gente na rua\u201d, para \u201cbarbarizar\u201d. Mas, para um dos membros da 41\u00aa CP, que n\u00e3o quis se identificar, a a\u00e7\u00e3o foi uma surpresa. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o t\u00f4 nem acreditando nas cenas que vi\u201d, disse. \u201cSe eles bateram, houve determina\u00e7\u00e3o, porque a ordem, at\u00e9 ontem, era n\u00e3o encostar a m\u00e3o em ningu\u00e9m. Tanto que a gente \u2019comeu calado\u2019 esses dias todos\u201d, disse. \u201cAt\u00e9 o pr\u00f3prio major Couto (que aparece nas fotos batendo) era o primeiro a n\u00e3o querer tocar a m\u00e3o nos estudantes. N\u00e3o entendo porque se acabou a paci\u00eancia. Talvez tenha sido ordem superior&#8230;do \u2019dono da Bahia\u2019, talvez\u201d, sup\u00f5e. <\/p>\n<p><b>Arbitrariedade<\/b> \u2013  Ao perceber que Diana estava filmando, os policiais pararam um pouco o empurra-empurra e as provoca\u00e7\u00f5es. Pouco tempo depois, recome\u00e7aram as agress\u00f5es, e Diana, c\u00e2mera em punho, voltou a registrar a arbitrariedade. Ao ver a insist\u00eancia da garota, o major Couto partiu para cima dela. \u201cA\u00ed \u00e9 que tudo come\u00e7ou\u201d, contou a garota, com uma inabal\u00e1vel calma. <\/p>\n<p>\u201cEle veio em minha dire\u00e7\u00e3o para tomar a minha c\u00e2mera (uma handcam digital comprada h\u00e1 pouco menos de um ano) e eu resisti, contou. Me agarraram. De in\u00edcio, foram dois\u201d, continua Diana, tranq\u00fcila. \u201cUm me segurou e outro me deu uma rasteira. Eu ca\u00ed, e passaram a me bater, me chutar, me pisar. Depois, me arrastaram pelo ch\u00e3o, puxando pelo cabelo, pelo pesco\u00e7o. Queriam tomar minha c\u00e2mera a todo custo\u201d. <\/p>\n<p>\u201cCom a pancadaria, senti medo, sim. Afinal, eram cinco policiais com cassetete na m\u00e3o, contra uma pessoa s\u00f3, mulher, com um corpo que n\u00e3o foi preparado para isso\u201d, pondera Diana, fazendo o saldo da covardia. \u201cMas, me defendi bem e n\u00e3o vou ter pesadelos por causa disso hoje, n\u00e3o. N\u00e3o tenho medo de repres\u00e1lias e, amanh\u00e3, volto \u00e0 rua\u201d. <\/p>\n<p>Apesar da trucul\u00eancia, Diana n\u00e3o se machucou muito. S\u00f3 alguns hematomas pelos bra\u00e7os, pernas e no rosto. Ela ressalta que quem lhe valeu, para que n\u00e3o tomasse uma \u201cfantada\u201d (porrada de cacetete) na cara foi o estudante Camilo Moutinho Ferreira, 19, estudante de Biologia na UCSal., que, na hora, botou o bra\u00e7o na frente, em seu socorro. Camilo tamb\u00e9m tentou defender a c\u00e2mera das m\u00e3os dos policiais, mas n\u00e3o conseguiu fugir. O equipamento terminou de posse de major Couto. <\/p>\n<p>Mas Diana manda um recado para os seus agressores: \u201cCuidado. Porque, nossa guerra n\u00e3o \u00e9 desse tipo, n\u00e3o \u00e9 f\u00edsica. N\u00e3o temos armas, como eles, mas nossa luta \u00e9 ideol\u00f3gica, \u00e9 para tentar conscientizar o pessoal para baixar a tarifa e, quem sabe, mas pra frente, lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de ensino, de vida, e tal e tal\u201d. A estudante deu queixa na 1\u00aa DP e pensa em levar os seus agressores para a Corregedoria da Pol\u00edcia Militar. <\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o quero ser m\u00e1rtir do movimento\u201d, segue a estudante. \u201cAcho que n\u00e3o existem nem l\u00edderes, nem m\u00e1rtires no movimento. Todos t\u00eam a mesma import\u00e2ncia e querem a mesma coisa: reivindicar por dias melhores\u201d.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>E do <a href=\\\"http:\/\/www.midiaindependente.org\/pt\/blue\/2003\/09\/262740.shtml\\\">CMI<\/a> vem esse detalhe:<\/p>\n<blockquote><p>\nUma camera filmadora foi apreendida. O Major Couto da viatura 94100 tomou a camera da m\u00e3o de uma garota. <\/p>\n<p>O engra\u00e7ado \u00e9 que ele tomou a camera a menina deu pra um \\&#8217;pivete\\&#8217; e depois tomou da m\u00e3o do guri, para que assim a camera ficasse apreendida como objeto de furto! O canalha usou o moleque pra roubar a camera!!! Major Couto \u00e9 o seu nome, 94100 \u00e9 o numero da viatura que ele usava, Policia Militar era o que dizia sua farda&#8230;\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Pelo jeito a sorte do guri foi n\u00e3o ter levado um tiro na nuca, por ter \\&#8221;resistido \u00e0 pris\u00e3o\\&#8221;&#8230; <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A foto acima \u00e9 da capa de hoje do jornal baiano A Tarde. Mostra a a\u00e7\u00e3o covarde e violenta da pol\u00edcia baiana que culminaram no espancamento de estudantes nesse sete de setembro. 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