{"id":1880,"date":"2004-02-02T12:40:37","date_gmt":"2004-02-02T15:40:37","guid":{"rendered":""},"modified":"2012-10-07T00:52:18","modified_gmt":"2012-10-07T03:52:18","slug":"pequena_historia_real_de_uma_neurose_musical","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/1880","title":{"rendered":"Pequena hist\u00f3ria real de uma neurose musical"},"content":{"rendered":"<p>Falando em King Crimson lembrei de um artigo que enviei para o finado <a href=\"\\&quot;http:\/\/www.cardosonline.com.br\\&quot;\">Cardosonline<\/a> e que saiu no n\u00famero 179 (de 10\/07\/2000) do mesmo. Acho que at\u00e9 vale a pena dar uma lidinha, apesar da reda\u00e7\u00e3o tosca que eu tinha ne \u00e9poca (confesso que n\u00e3o melhorei muito):<\/p>\n<blockquote><p><strong>Pequena hist\u00f3ria real de uma neurose musical<\/strong><\/p>\n<p>Voc\u00ea \u00e0s vezes tem uma m\u00fasica que fica presa na sua cabe\u00e7a, que n\u00e3o sai de\u00a0l\u00e1 de jeito nenhum? Pois \u00e9, eu n\u00e3o sei como \u00e9 com as outras pessoas, mas\u00a0quem tem que me ag\u00fcentar no dia a dia logo v\u00ea que eu tenho esse pequeno\u00a0problema. Na maior parte das pessoas isso n\u00e3o chega a ser algo s\u00e9rio, mas\u00a0para mim \u00e9 algo perturbador, que fica martelando a minha cabe\u00e7a e que \u00e0s\u00a0vezes me enlouquece. M\u00fasicas como Ana J\u00falia e Chibombom para mim s\u00e3o um\u00a0verdadeiro tormento, para mim e para as pessoas que est\u00e3o \u00e0 minha volta, j\u00e1\u00a0que eu fico cantarolando elas. Geralmente tal m\u00fasica fica pouco tempo na\u00a0minha cabe\u00e7a e depois some. Mas tamb\u00e9m pode acontecer dessa m\u00fasica ficar\u00a0dias, at\u00e9 semanas. A quest\u00e3o de 6 meses atr\u00e1s, eu n\u00e3o parava de ficar\u00a0cantarolando &#8220;\u00d4 Ana J\u00faliaaaa&#8230;&#8221; Tinha gente na minha volta que queria me\u00a0enforcar. Para a m\u00fasica sair da cabe\u00e7a, s\u00f3 ouvindo a m\u00fasica umas 10, 15\u00a0vezes seguidas que isso passa. Me curei do Ana J\u00falia quando comprei uma\u00a0revista ShowBizz que tinha um Cd onde estava a desgra\u00e7ada da m\u00fasica. J\u00e1 o\u00a0Chibombom, para a minha sorte, passou por conta pr\u00f3pria, j\u00e1 que seria\u00a0insuport\u00e1vel ouvir aquela coisa mais de duas vezes seguidas. Mas isso diz\u00a0respeito \u00e0quelas m\u00fasicas que s\u00e3o verdadeiros v\u00edrus m\u00fasicais, que se\u00a0instalam na sua cabe\u00e7a e n\u00e3o te d\u00e3o prazer algum, mas sim que s\u00f3 ficam\u00a0atormentando.<\/p>\n<p>Bom \u00e9 quando uma m\u00fasica boa se prende na cabe\u00e7a e ali fica, germinando,\u00a0crescendo, ocupando espa\u00e7os e mostrando todos os seus detalhes. \u00c9 a\u00ed que eu\u00a0posso ficar horas e horas ouvindo a m\u00fasica, pegando todos os detalhes dela,\u00a0todas as nuances, me deleitando. At\u00e9 hoje, a m\u00fasica que eu mais gostei de\u00a0destrinchar filigrama por filigrama foi &#8220;Mother&#8221;, do Sugarcubes, que\u00a0durante dias fiquei com o CD-Player programado em auto-repeat, com s\u00f3\u00a0aquela m\u00fasica no playlist. Se algu\u00e9m colocar a m\u00fasica sou capaz de apontar\u00a0o momento exato em que a voz da Bjork se adianta ao wallsound perfeito\u00a0criado por Bragi, Einar, Siggi e Thor. O caso aqui \u00e9 que eu tinha o CD para\u00a0ficar horas e horas ouvindo. Assim como eu tinha o CD para ficar horas e\u00a0horas ouvindo &#8220;The Rapture&#8221;, faixa titulo do \u00f3timo CD da Siouxsie &amp; The\u00a0Bashees, produzido pelo John Cale e que sabe-se l\u00e1 por que praticamente n\u00e3o\u00a0tocou nas r\u00e1dios daqui do Sul. N\u00e3o, n\u00e3o tocou nem na Ipanema FM&#8230; O \u00fanico\u00a0caso de um CD inteiro que eu fiquei destrinchando foi o &#8220;Ok computer&#8221;, do\u00a0Radiohead (excetuando a primeira m\u00fasica).<\/p>\n<p>O problema se d\u00e1 quando n\u00e3o tenho o CD e tenho que procurar por a\u00ed, para\u00a0poder dar descanso para a cabe\u00e7a. Sim, descanso, j\u00e1 que enquanto eu n\u00e3o\u00a0puder ficar horas e horas destrinchando a m\u00fasica ela fica ali, no cantinho\u00a0do c\u00e9rebro, surgindo de vez em quando, se tornando, por incr\u00edvel que\u00a0pare\u00e7a, algo inc\u00f4modo. \u00c9 por isso que eu adoro a MTV, j\u00e1 que sempre coloca\u00a0o nome da m\u00fasica que est\u00e1 tocando e o nome do CD. Lembro que fiquei com\u00a0&#8220;Never There&#8221; dias na cabe\u00e7a, at\u00e9 assistir na MTV o nome da banda e saber\u00a0onde podia encontrar a m\u00fasica, j\u00e1 que o \u00f3timo ingl\u00eas do pessoal que\u00a0trabalha em r\u00e1dio aqui no Sul sempre me fazia entender que o nome da banda\u00a0era &#8220;Queigi&#8221;&#8230; Como o k de Cake ficou com som de g para mim \u00e9 uma\u00a0inc\u00f3gnita que desafia a minha compreens\u00e3o do ingl\u00eas. O fato \u00e9 que foi\u00a0gra\u00e7as \u00e0 MTV que finalmente descobri que m\u00fasica era aquela.<\/p>\n<p>Agora imagine o seguinte: o ano \u00e9 1988 e voc\u00ea tem 17 anos. Voc\u00ea costuma\u00a0dormir no sof\u00e1 da sala da frente da sua casa, onde h\u00e1 um belo aparelho de\u00a0som Polyvox, e este aparelho est\u00e1 geralmente sintonizado na Ipanema FM. Uma\u00a0bela noite, com voc\u00ea naquele estado meio dormindo meio acordado, eis que\u00a0toca uma m\u00fasica que chama a sua aten\u00e7\u00e3o, a ponto de te despertar\u00a0totalmente. Voc\u00ea acha ela b\u00e1rbara, perfeita, uma p\u00e9rola compar\u00e1vel a\u00a0&#8220;Listening Wind&#8221;, do Talking Heads, apesar de ser completamente diferente.\u00a0Um som que fugia totalmente do convencional, que tinha um vocalista\u00a0incr\u00edvel com um guitarrista melhor ainda. Pois bem, essa m\u00fasica foi a\u00a0\u00faltima do Clube do Ouvinte daquela noite, e voc\u00ea n\u00e3o conseguiu entender o\u00a0nome da m\u00fasica e da banda, j\u00e1 que voc\u00ea essa \u00e9poca n\u00e3o entendia uma palavra\u00a0que fosse em ingl\u00eas excetuando o verbo to be. Pois \u00e9, foi isso que\u00a0aconteceu comigo. Na hora achei a m\u00fasica muito legal, boa, e me virei no\u00a0sof\u00e1 e voltei a dormir. O problema apareceu umas duas semanas depois,\u00a0quando percebi que aquela m\u00fasica n\u00e3o saia da minha cabe\u00e7a. N\u00e3o saia e ficou ali martelando, aparecendo nos momentos mais estranhos, chamando a minha\u00a0aten\u00e7\u00e3o. Levando em conta que quando eu ouvi eu estava meio que dormindo e\u00a0n\u00e3o peguei muitos detalhes, isso tornou imposs\u00edvel poder chegar numa loja\u00a0de discos (est\u00e1vamos em 88, lembre-se disso) e perguntar &#8220;Olha, voc\u00ea\u00a0conhece uma m\u00fasica que \u00e9 assim assim assado?&#8221; N\u00e3o, n\u00e3o dava, at\u00e9 porque os\u00a0detalhes que eu lembrava eram das partes mais intrincadas da m\u00fasica, as\u00a0mais complexas.<\/p>\n<p>Num primeiro momento at\u00e9 achei que fosse uma m\u00fasica do Talking Heads que\u00a0tivesse a participa\u00e7\u00e3o do Robert Fripp, do King Crimson, j\u00e1 que o vocalista\u00a0tinha um jeito esquizofr\u00eanico de cantar muito parecido com o do David Byrne.\u00a0Essa hip\u00f3tese n\u00e3o era de todo absurdo at\u00e9 por que os dois j\u00e1 haviam\u00a0trabalhado junto no LP &#8220;Fear of Music&#8221;, com destaque na m\u00fasica &#8220;I Zimbra&#8221;.\u00a0Quero dizer, eu achava que era o Robert Fripp, mas n\u00e3o tinha certeza\u00a0alguma, at\u00e9 porque dizer que um guitarrista de uma m\u00fasica era o mesmo\u00a0guitarrista de outra baseado s\u00f3 numa audi\u00e7\u00e3o \u00e9 algo completamente fora de\u00a0\u00f3rbita. E para complicar, do King Crimson nem com reza braba voc\u00ea conseguia\u00a0encontrar um disco pr\u00e1 vender aqui no Brasil. S\u00f3 se encontrava o &#8220;In the\u00a0court of the crimson king&#8221;, que foi gravado l\u00e1 em 1969. \u00c9 claro que o Clube\u00a0do Ouvinte ainda tinha dessas particularidades: tocavam-se discos que n\u00e3o\u00a0tinham sido lan\u00e7ados no Brasil. Resumindo: tava num mato sem cachorro, j\u00e1\u00a0que na \u00e9poca eu n\u00e3o tinha (e ainda n\u00e3o tenho) dinheiro sobrando para ficar\u00a0importando discos, ainda mais para ficar procurando uma m\u00fasica que eu n\u00e3o\u00a0tinha certeza de quem era, quem tocava, etc&#8230;. Pois bem, os anos passam, e aparece uma tal de Internet. Da\u00ed, apareceu o\u00a0MP3. Para melhorar, apareceu o Napster. Isso \u00e9 hist\u00f3ria mais que conhecida,\u00a0contada e recontada todas as semanas nos suplementos de inform\u00e1tica dos\u00a0jornais. E \u00e9 claro que foi a\u00ed que eu v\u00ed que estava a minha chance de\u00a0encontrar a tal m\u00fasica. E assim foi feito: sempre que eu estava conectado\u00a0em casa, fazendo algo que n\u00e3o obrigasse uso realmente exclusivo da rede, l\u00e1\u00a0estava o Napster aberto procurando por arquivos de m\u00fasicas do Talking Heads\u00a0da fase inicial, quando eles foram produzido pelo Brian Eno e que\u00a0resultaram nos seus melhores trabalhos. N\u00e3o achei nada que confirmasse que\u00a0o vocalista era o David Byrne, de forma que passei a procurar por m\u00fasicas\u00a0do Robert Fripp e do King Crimson. N\u00e3o conseguia tirar da cabe\u00e7a a id\u00e9ia\u00a0que era ele que tocava naquela m\u00fasica, e isso que n\u00e3o sou nenhum admirador\u00a0de guitarristas e seus estilos. Mas o fato \u00e9 que o Robert Fripp realmente\u00a0toca de um jeito extremamente pessoal. Eu n\u00e3o tinha a certeza se aquela\u00a0m\u00fasica era realmente deles, como j\u00e1 disse antes, mas por que n\u00e3o tentar? O\u00a0pior que podia acontecer era ter um monte de m\u00fasicas boas gravadas no HD.<\/p>\n<p>E assim foi feito. Horas e horas de download, de transfer\u00eancias<br \/>\ninterrompidas, de arquivos mal gravados, de arquivos de 12 Mb levando horas\u00a0para serem baixadas (bendita seja a tarifa \u00fanica no fim de semana) at\u00e9\u00a0que&#8230; a hist\u00f3ria chega ao seu fim! Sim, eu encontrei a m\u00fasica. Sim,\u00a0finalmente eu ouvi de novo aquela m\u00fasica que eu ouvi a 11 anos atr\u00e1s, e que\u00a0ficava al\u00ed num cantinho do c\u00e9rebro chamando a minha aten\u00e7\u00e3o, lembrando que\u00a0ela existia. Para a minha surpresa, o guitarrista era realmente o Robert\u00a0Fripp, a banda era realmente o King Crimson. Assim, eis que agora &#8220;Three of\u00a0a perfect pair&#8221; est\u00e1 agora sendo executada no meu computador pela n-\u00e9sima\u00a0vez. E foi gra\u00e7as ao computador e \u00e0s redes que agora posso ouvir essa\u00a0m\u00fasica, algo impens\u00e1vel a 11 anos atr\u00e1s&#8230; E quanto \u00e0 m\u00fasica, \u00e9 a melhor\u00a0coisa que o King Crimson j\u00e1 fez? N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9, mas de qualquer maneira \u00e9\u00a0muito boa, e fico feliz de ter ficado com ela tanto tempo na minha cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 certas neuroses que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o ruins assim.<\/p><\/blockquote>\n<p>E o detalhe interessante \u00e9 que s\u00f3 esse fim de semana me toquei de uma coisa: o Adrian Belew, que era o vocalista do King Crimson na \u00e9poca do &#8220;Three of a perfect pair&#8221;, j\u00e1 foi guitarrista do Talking Heads tamb\u00e9m. \u00c9 interessante ver como ele realmente pegou o jeito de cantar do David Byrne&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falando em King Crimson lembrei de um artigo que enviei para o finado Cardosonline e que saiu no n\u00famero 179 (de 10\/07\/2000) do mesmo. 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