{"id":2170,"date":"2004-09-07T12:17:00","date_gmt":"2004-09-07T15:17:00","guid":{"rendered":""},"modified":"-0001-11-30T00:00:00","modified_gmt":"-0001-11-30T03:00:00","slug":"","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/2170","title":{"rendered":"Todo mundo sabe a dor que carrega"},"content":{"rendered":"<p>Fabr\u00edcio Carpinejar: <a href=\\\"http:\/\/www.carpinejar.blogger.com.br\/2004_09_01_archive.html#31467310\\\">Meu primeiro dia sem o Leandro<\/a><\/p>\n<blockquote><p>\n\\&#8221;Porto Alegre &#8211; Um Uno saiu da pista e invadiu o canteiro central da freeway (BR-290), no km 87, pr\u00f3ximo \u00e0 Avenida Assis Brasil, por volta das 22h30min. O motorista Leandro Mohr, 32 anos, morreu na madrugada de ontem no Hospital de Pronto Socorro. Ele teria tido um mal s\u00fabito e perdido o controle do autom\u00f3vel.\\&#8221; <br \/>\n<b>Jornal Zero Hora<\/b> <\/p>\n<p>\\&#8221;A Dor n\u00e3o tem nada a ver com tuas caracter\u00edsticas individuais. A Dor \u00e9 uma pessoa que te confronta.\\&#8221; <br \/>\n\\&#8221;A Dor contemporiza, ilumina e aquece, gira igual sobre bons e maus. P\u00f5e frutos e os madura. Mas n\u00e3o os colhe.\\&#8221; <br \/>\n<b>Maria Carpi, Nos Gerais da Dor<\/b> <\/p>\n<p>Se eu tenho uma dor, eu n\u00e3o a abandono, n\u00e3o fujo dela. Eu quero alfabetiz\u00e1-la, sen\u00e3o ela corr\u00f3i as outras lembran\u00e7as, se adona do que n\u00e3o \u00e9 dela, se apossa das alegrias que a antecederam e das alegrias que estavam por chegar. Mas h\u00e1 dores analfabetas, arrivistas, que nos mostram o quanto a pr\u00f3pria palavra pode ser f\u00fatil e desnecess\u00e1ria, o quanto que os planos podem nos contrariar, o quanto somos inexplicavelmente insignificantes. S\u00e3o poucas as vezes em minha vida em que renunciei a fala. Talvez em um anivers\u00e1rio em que ningu\u00e9m se lembrou de mim. Talvez quando perdi minha av\u00f3 e tive um sonho anterior em que ela me entregava uma carta. Mas eu ainda optava por n\u00e3o dizer nada. Tinha condi\u00e7\u00f5es de terminar o jejum a qualquer momento. O pior \u00e9 quando n\u00e3o se consegue falar mesmo tentando, n\u00e3o se fala por necessidade, ouso abrir a boca e n\u00e3o sai a corda da cisterna, o balde da chuva, o rumor da porta. Todo o corpo congestionado, trancado em tremores e estalos. Nada. Leandro morreu. Um amigo que cursava o mestrado em Letras Inglesas na Universidade Federal de Santa Catarina. Sua mulher \u00e9 uma de minhas grandes amigas, Adriana, que trabalhou comigo na Unisinos. Ele teve uma parada card\u00edaca enquanto dirigia. 32 anos, a minha idade. Escrevo por extenso para a idade parecer mais longa: trinta e dois anos. Adri largou tudo para acompanh\u00e1-lo no \u00faltimo m\u00eas em Florian\u00f3polis, arrumou emprego por l\u00e1, se transferiu para ficar perto dele. N\u00e3o sei se acredito em profecia, por\u00e9m ela teve. Acompanhava Leandro na hora do acidente. N\u00e3o sei quais foram suas \u00faltimas palavras, as \u00faltimas palavras n\u00e3o importam, eu pensava que importavam at\u00e9 hoje, por\u00e9m n\u00e3o importam, sinceramente o que vale \u00e9 o que n\u00e3o foi dito e que a Adriana compreendeu. Adriana, no meio da loucura do luto, chegou a dizer com uma serenidade que s\u00f3 o amor prepara: \\&#8221;ele morreu feliz, o m\u00eas que passamos juntos foi um dos mais felizes, n\u00e3o morreu sozinho\\&#8221;. Ela me abra\u00e7ou com tanta dor, que volto a chorar ao afrouxar o abra\u00e7o. N\u00e3o havia osso em meu rosto. N\u00e3o havia algo que possa depois suavizar na forma de cipreste ou figueira. Havia um fogo rude, querendo apenas deixar sua cinza, carv\u00e3o, pedra de vento, asa calada de pedra. O p\u00e1ssaro n\u00e3o \u00e9 somente sua asa. Uma como\u00e7\u00e3o sem f\u00f4lego para responder, sem parentes nas \u00e1rvores. Corpos prensados, bem antes do nascimento da \u00e1gua. Casulo trincado em brasas. O que ela me abra\u00e7ou ficou ali. Ela abra\u00e7ou sua dor, eu n\u00e3o existia. Ela atravessou sua dor, eu n\u00e3o a percorri. Ela deve ter recolhido os sapatos dele na estrada, reunido as roupas, para n\u00e3o deixar nada fora de sua morte. O pulm\u00e3o dela deve ter trocado de turno com o cora\u00e7\u00e3o. Quando entrou na sala do vel\u00f3rio, com aquelas l\u00e2mpadas e coroa de flores, aquele lustre que n\u00e3o correspondia ao despojamento do resto, ela gritou sem adjetivos. Um grito agudo, intranspon\u00edvel. Fiquei de fora naquele momento. Entrei no grito dela. E comecei a pensar sem querer pensar o que eu faria em seu lugar. E n\u00e3o consegui. N\u00e3o interrompi as calhas, n\u00e3o espremi as frutas. Fracassei em chegar onde o homem n\u00e3o h\u00e1. Eu n\u00e3o consegui te acompanhar, Adriana, desculpa, eu n\u00e3o consegui chegar em tua dor ao menos para alfabetiz\u00e1-la. \u00c9 como se a poesia fosse lenta demais. E n\u00e3o entendi Deus ou o seu sentido de dar o que nem queremos, de tirar o que nem sab\u00edamos que t\u00ednhamos. O grito dela virou um ouvido. Um ouvido. E o pai do Leandro e a m\u00e3e do Leandro, \u00e0 beira do leito, n\u00e3o reconheceram o filho, que sempre andava de bon\u00e9s, de bermudas folgadas, com um figurino praiano, solto, jovem. E velaram o corpo do seu filho, os l\u00e1bios secos e p\u00e1lidos, a falta maior do que a falta, como se fosse o corpo do melhor amigo do filho. O Leandro no caix\u00e3o n\u00e3o era o Leandro, t\u00e3o pequeno, encolhido, sem o peso de suas bra\u00e7adas pelo ar, sem a arrog\u00e2ncia do sopro, sem a generosidade do sopro. A morte nos devolve a estranheza. Eu desejei embal\u00e1-lo no colo para acord\u00e1-lo do medo. Vou coletando suas frases, com receio de alter\u00e1-las, marisco guardando o mar com os cuidados de quem segura as antenas de um inseto. Deixo uma cama desocupada em mim, um arm\u00e1rio desocupado em mim, um riso que n\u00e3o vai conseguir ultrapassar a outra metade que a dor ocupou. \u00c9 meu primeiro dia sem o Leandro. O primeiro dia do mundo sem o Leandro.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>A Adriana me contou que eles estavam ouvindo o CD da <a href=\\\"http:\/\/www.blanched.net\\\">Blanched<\/a> que eu dei de presente para eles quando ele teve o ataque card\u00edaco. E a primeira m\u00fasica do CD se chama justamente \\&#8221;Tristes dos que procuram respostas dentro de si porque l\u00e1 s\u00f3 h\u00e1 espera\\&#8221;. Eu procuro respostas para o fato do Leandro ir t\u00e3o cedo e n\u00e3o sei onde procurar elas <a href=\\\"http:\/\/www.carpinejar.blogger.com.br\\\">Fabro<\/a>. N\u00e3o sei.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabr\u00edcio Carpinejar: Meu primeiro dia sem o Leandro \\&#8221;Porto Alegre &#8211; Um Uno saiu da pista e invadiu o canteiro central da freeway (BR-290), no km 87, pr\u00f3ximo \u00e0 Avenida Assis Brasil, por volta das 22h30min. O motorista Leandro Mohr, 32 anos, morreu na madrugada de ontem no Hospital de Pronto Socorro. 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