{"id":2338,"date":"2005-04-02T05:23:27","date_gmt":"2005-04-02T08:23:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/2005\/04\/02\/bebado-e-fogo\/"},"modified":"2005-04-02T05:42:27","modified_gmt":"2005-04-02T08:42:27","slug":"bebado-e-fogo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/2338","title":{"rendered":"B\u00eabado \u00e9 fogo&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Ok, ainda t\u00f4 com a adrenalina correndo no sangue e t\u00f4 registrando essa para n\u00e3o esquecer os detalhes&#8230;<\/p>\n<p>Estava indo pela Independ\u00eancia, tr\u00f4pego e faceiro, depois de v\u00e1rias e v\u00e1rios doses de cerveja e de ter deixado alguns amigos na esquina do Factory, rumo ao meu lar doce lar. Vou indo e l\u00e1 longe j\u00e1 vejo o t\u00edpico man\u00e9 da vila. Preciso descrever? N\u00e3o n\u00e9. Bem, enfim, olhei e pensei: \u00e9 fria. O que se faz nessas horas? A pessoa de bom senso muda de lado de cal\u00e7ada, d\u00e1 meia volta, p\u00e1ra em um local onde tem pessoas, certo? Certo. S\u00f3 que leve em conta que este caro gorducho aqui n\u00e3o estava totalmente s\u00e3o, j\u00e1 que, como contei antes, havia tomado v\u00e1rias cervejas. Al\u00e9m disso o cara estava perto, muito perto. O que fiz ent\u00e3o? Me fiz de louco.<\/p>\n<p>Ok, o que \u00e9 se fazer de louco? A express\u00e3o \u00e9 geralmente usada para aquele cara que finge que determinada coisa n\u00e3o tem nada a ver com ele. No meu caso \u00e9 usada para se fazer de louco mesmo, no caso comecei a brincar de n\u00e3o pisar no branco. Quando o cara chegou perto ele estranhou, afinal o jeito que eu caminhava era tudo menos normal. Ele primeiro chegou perto, pedindo uma grana. Eu perguntei: <em>&#8220;Qual \u00e9 o teu nome?&#8221;<\/em>. Ele respondeu <em>&#8220;Alexandre.&#8221;<\/em> e eu repliquei <em>&#8220;Charles&#8221;<\/em>. Recomecei a andar, atravessando a rua. O cara perguntou se eu tava bem. Respondi: <em>&#8220;T\u00f4, t\u00f4, o importante \u00e9 n\u00e3o pisar no branco&#8221;<\/em>, evitando as faixas brancas da faixa de seguran\u00e7a. Ele disse que podia me levar at\u00e9 em casa, por causa dos carros. Eu respondi <em>&#8220;N\u00e3o tem problema, aquele l\u00e1 t\u00e1 andando a 30 km por hora, t\u00e1 lento, o importante \u00e9 n\u00e3o pisar no branco.&#8221;<\/em> e fui em frente. Na cal\u00e7ada comecei a caminhar mais r\u00e1pido, s\u00f3 pisando nas listas pretas dela, e sempre repetindo <em>&#8220;O importante \u00e9 n\u00e3o pisar no branco.&#8221;<\/em>, com ele ali me acompanhando. Assim foi at\u00e9 que ele me deu um empurr\u00e3o leve e soltou <em>&#8220;Te toca maluco, isso \u00e9 um assalto e t\u00f4 armado&#8221;<\/em> e tirou algo do bolso.  Aquilo n\u00e3o pareceu uma arma, mas eu n\u00e3o posso ter certeza j\u00e1 que nessa hora eu ainda tava meio tonto. Foi nessa hora que a t\u00e1tica de se fazer de louco deu certo, j\u00e1 que um cara louco pode fazer qualquer coisa, mesmo a mais absurda. No caso eu lembrei que atr\u00e1s de mim, do outro lado da cal\u00e7ada, sempre tem um papa-entulho e respondi <em>&#8220;Ah \u00e9? Quer me assaltar?&#8221;<\/em> e sa\u00ed correndo. A id\u00e9ia era me proteger atr\u00e1s do tro\u00e7o pro caso de rolar um tiro. Era essa a id\u00e9ia, mas no que cheguei l\u00e1 vi aquele <strong>PUTZA <\/strong>peda\u00e7o de madeira. <\/p>\n<p>Sabe peda\u00e7o de madeira? T\u00e1bua? Aquele grande? De constru\u00e7\u00e3o? Cheio de prego? Maior do que voc\u00ea? Que pesa pra burro? Pois \u00e9, tinha um <strong>PUTZA <\/strong>peda\u00e7o desses no papa-entulho. Olhei aquilo e nem pensei: peguei a coisa e sa\u00ed gritando <em>&#8220;Quer me assaltar seu f-d-p?&#8221;<\/em> &#8211; \u00f3bvio que n\u00e3o gritei a abreviatura, mas enfim&#8230; &#8211; <em>&#8220;Ent\u00e3o vem me assaltar seu fdp!!!!&#8221;<\/em> e sa\u00ed correndo atr\u00e1s dele. Sim, sa\u00ed, berrando feito um louco, segurando aquele <strong>PUTZA<\/strong> peda\u00e7o de madeira em cima da cabe\u00e7a como se fosse uma clave, por quase duas quadras. N\u00e3o, eu n\u00e3o sei de onde tirei a for\u00e7a necess\u00e1ria para levantar aquele <strong>PUTZA<\/strong> peda\u00e7o de madeira. N\u00e3o sei de onde tirei f\u00f4lego para correr atr\u00e1s do cara, j\u00e1 que ele correu horrores. N\u00e3o sei. S\u00f3 sei que fiz isso e que quando vi que n\u00e3o ia alcan\u00e7ar o cara de raiva peguei aquele <strong>PUTZA<\/strong> peda\u00e7o de madeira e bati ele com for\u00e7a contra o ch\u00e3o. Ah, claro, fiquei com raiva tamb\u00e9m do cara que viu o assaltante correndo e eu atr\u00e1s e nem se mexeu para ajudar, mas eu entendo perfeitamente: afinal ele tava s\u00f3 protegendo o dele. Mas o caso \u00e9 que na hora fiquei com muita raiva, muita raiva, e o resultado foi que quebrou o peda\u00e7o de madeira em dois, sendo um peda\u00e7o quase do meu tamanho, um pouco mais largo que meu bra\u00e7o. Espumando de raiva levei os dois peda\u00e7os at\u00e9 o papa-entulho, joguei o maior l\u00e1 dentro e completamente desvairado sa\u00ed   bufando pela Independ\u00eancia com o peda\u00e7o menor (que era quase da minha altura) como se fosse um tacape no ombro. Tenho pena dos ripongas que ficam vendendo bijouteria e que me viram chegando. Um j\u00e1 saiu gritando <em>&#8220;N\u00e3o fui eu!&#8221;<\/em> e outro, que me conhece a um bom tempo, largou um <em>&#8220;Calma cara, o que \u00e9 isso?&#8221;<\/em>. E eu: <em>&#8220;Um fdp tentou me roubar!&#8221;<\/em>.  Ele: <em>&#8220;Ele te roubou?&#8221;<\/em>. Eu: <em>&#8220;N\u00e3o, tentou, mas n\u00e3o conseguiu.&#8221;<\/em>.  Ele:<em> &#8220;Ah, se n\u00e3o levou nada ent\u00e3o t\u00e1 bom&#8230;&#8221;<\/em>. O riponga que se assustou nessa hora j\u00e1 tava mais calmo e largou um <em>&#8220;Meu, larga esse peda\u00e7o de pau, antes que a pol\u00edcia te veja e fique ruim pr\u00e1 ti.&#8221;<\/em>. N\u00e3o dei ouvidos e sa\u00ed ainda bufando de raiva e carregando aquele peda\u00e7o de madeira no ombro at\u00e9 que passei na frente do Ateli\u00ea Zumbi e um carro de uma empresa de vigil\u00e2ncia me viu. Foi ver os caras e me tocar que realmente eu podia me meter numa fria e deixei o peda\u00e7o de madeira de lado.  Nessa hora liguei pros meus amigos que eu tinha deixado no Factory, n\u00e3o sei porque, s\u00f3 sei que precisava contar essa grande burrice que eu fiz para algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Sim, grande burrice. Vai que o cara estivesse mesmo com um rev\u00f3lver? Pois \u00e9, se estivesse possivelmente eu n\u00e3o estaria escrevendo isso agora. Podia estar estrebuchado no ch\u00e3o com uma bala no corpo, sem vida, e tudo por causa de uns trocados. S\u00f3 que n\u00e3o aconteceu isso, felizmente, e dessa vez me safei. Sim, b\u00eabado \u00e9 fogo, faz as coisas mais absurdas, coisas t\u00e3o absurdas que \u00e9 de se acreditar naquele ditado que crian\u00e7a e bebum sempre tem um anjo da guarda por perto. Tenho pena do meu anjo da guarda: ele quase deve ter tido um infarte quando viu a loucura que eu estava fazendo. Mas, enfim, assim foi e c\u00e1 estou. <strong>Ainda estou.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ok, ainda t\u00f4 com a adrenalina correndo no sangue e t\u00f4 registrando essa para n\u00e3o esquecer os detalhes&#8230; Estava indo pela Independ\u00eancia, tr\u00f4pego e faceiro, depois de v\u00e1rias e v\u00e1rios doses de cerveja e de ter deixado alguns amigos na esquina do Factory, rumo ao meu lar doce lar. 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