{"id":2482,"date":"2006-03-03T00:41:03","date_gmt":"2006-03-03T03:41:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/2006\/03\/03\/bye-bye-brasil\/"},"modified":"2006-03-03T00:58:59","modified_gmt":"2006-03-03T03:58:59","slug":"bye-bye-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/2482","title":{"rendered":"Bye Bye Brasil"},"content":{"rendered":"<p>1993. Foi nesse ano que eu vim morar em S\u00e3o Leopoldo pela primeira vez. Conversei com os meus pais, dizendo que gastar mais de 3 horas por dia indo de Taquara at\u00e9 a Unisinos era para matar, e eles resolveram me ajudar e me meteram numa pens\u00e3o. <img src='http:\/\/media.pilger.com.br\/wp-content\/luizbrasil1.jpg' alt='' style='margin-left: 10pt;' align=right \/>Pens\u00e3o essa bem do lado da prefeitura, de forma que eu estava a uns 50 metros da rua principal da cidade. Assim era pegar um livro, caminhar aquela uma quadra e meia e me instalar no <a href=\"http:\/\/www.mackbar.com.br\">MackBar<\/a>, que na \u00e9poca era 24 horas e um dos lugares mais fuleiros do centro (na real ele nesse ponto n\u00e3o mudou muito&#8230;), onde eu ficava bebericando algumas garrafas de \u00e1gua mineral enquanto ficava ali, lendo. E l\u00e1 fui fazendo amigos. Tinha o Nilo, o Giovano, o Maur\u00edcio, o Marcelo, o Crai, toda uma gurizada que estudava na Unisinos  e que estavam ali como eu, de passagem. E na nossa roda volta e meia aparecia um senhor, que entre um gole e outro de conhaque ou qualquer outra bebida que tivesse \u00e0 m\u00e3o nos mostrava seus desenhos super coloridos feitos em um peda\u00e7o qualquer de papel com giz de cera e que nos contava hist\u00f3rias com um sotaque meia acastelhanado, l\u00e1 da fronteira. O nome dele? Lu\u00edz Brasil.<\/p>\n<p>Eram bonitas as pinturas. E era comum ver elas por S\u00e3o Leopoldo. Qualquer restaurante tinha um quadro feito pelo Brasil pendurado na parede. Qualquer bar. Boteco? Tinha um quadro pendurado. Pizzaria? L\u00e1 tava o quadro do Brasil. Lembro que havia na Unisinos um mural maravilhoso desenhado por ele, num DA que depois foi demolido para a constru\u00e7\u00e3o do Unilinguas. E ele desenhava e desenhava sem parar. Volta e meia, no meio da conversa, tirava uma folha de papel (\u00e0s vezes uma folha de enrolar p\u00e3o) e criava. N\u00e3o foi uma ou duas vezes que ele se encantava com uma pessoa e dava uma de suas obras para ela. E ele contava hist\u00f3rias, muitas hist\u00f3rias. Hist\u00f3rias do tempo da ditadura, hist\u00f3rias da amizade que ele tinha com artistas, hist\u00f3rias de Mario Quintana, de quem ele gostava muito. <img src='http:\/\/media.pilger.com.br\/wp-content\/luizbrasil2.jpg' alt='' style='margin-right: 10pt;' align=left \/> Ali\u00e1s \u00e9 do Mario Quintana a lembran\u00e7a mais forte que eu tenho do Brasil. Ele costumava contar uma hist\u00f3ria em especial, aquela de quando o Mario foi saudado por um leitor (no caso, um militar) que, resolvendo ser simp\u00e1tico, disse <em>&#8220;Gostei muito de seus poeminhas&#8221;<\/em> no que Quintana de bate pronto respondeu <em>&#8220;Muito obrigado por sua opini\u00e3ozinha&#8221;<\/em>. E o Brasil se exaltava, apontava para o c\u00e9u e repetia <em>&#8220;Opini\u00e3ozinha! Opini\u00e3ozinha!&#8221;<\/em>, soltando um sorriso maroto. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos tempos eu n\u00e3o andava vendo muito o Brasil. Nas poucas vezes que eu o via era comum ver ele prostrado, dormindo do lado de um copo, com a sua sacola cheia de pap\u00e9is. Quando eu o encontrava acordado era comum ele olhar para mim, estalar os dedos e me dizer sorrindo &#8220;Charles Bukowski!&#8221; e cada um seguia seu caminho, depois de um r\u00e1pido cumprimento. No mais, eu n\u00e3o sabia mais sobre ele. E eis que hoje fui ver <a href=\"http:\/\/solourbano.blogspot.com\/2006\/03\/luto.html\">o blog do \u00c9ver e ali vi que faleceu o Brasil<\/a>.  Sim, foi-se o pintor dos meninos de ruas e das prostitutas de S\u00e3o Leopoldo, foi-se o bo\u00eamio que n\u00e3o tinha limites e que se deixou engolir por eles. E se foi uma pessoa boa, que, numa mesa de bar, contava hist\u00f3ria e desenhava.  <\/p>\n<p>&#8211; Charles Bukowski!<\/p>\n<p>&#8211; Buenas Brasil! Como vai?<\/p>\n<p>&#8211; Como um passarinho! Como um passarinho!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1993. Foi nesse ano que eu vim morar em S\u00e3o Leopoldo pela primeira vez. Conversei com os meus pais, dizendo que gastar mais de 3 horas por dia indo de Taquara at\u00e9 a Unisinos era para matar, e eles resolveram me ajudar e me meteram numa pens\u00e3o. Pens\u00e3o essa bem do lado da prefeitura, de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2482"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2482"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2482\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}