{"id":2771,"date":"2007-05-11T02:31:39","date_gmt":"2007-05-11T05:31:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/2007\/05\/11\/na-forma-de-um-recorte-xerocado\/"},"modified":"2007-05-11T02:47:05","modified_gmt":"2007-05-11T05:47:05","slug":"na-forma-de-um-recorte-xerocado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/archives\/2771","title":{"rendered":"Na forma de um recorte xerocado"},"content":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, agora em abril andei passando uns dias de f\u00e9rias e fui l\u00e1 para a casa dos meus pais, em Taquara. E das prateleiras de livros largados l\u00e1 no quarto do fundo, que ficam juntos com coisas como edi\u00e7\u00f5es das Sele\u00e7\u00f5es da d\u00e9cada de 80, edi\u00e7\u00f5es da revista Realidade e por a\u00ed vai, acabei desenterrando tr\u00eas livros do <strong>A. J. Lucas Camargo<\/strong>. <\/p>\n<p>Se voc\u00ea ou um parente (meu caso) trabalhava no Banco do Brasil durante os anos 70 possivelmente voc\u00ea teve acesso a um desses livros. O Lucas Camargo era mais um dos membros do clube <em>Banc\u00e1rios Que Escrevem S.A.<\/em>, que tinha por patrono o grande Stanislaw Ponte Preta (ou <a href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/S%C3%A9rgio_Porto\">S\u00e9rgio Porto<\/a>, se preferirem) e que acabaram legando para a literatura brasileira alguns bons momentos (ok, vi alguns terr\u00edveis tamb\u00e9m&#8230;). No final das contas esses livros eram comprados por colegas do banco e dali n\u00e3o saiam. Meu pr\u00f3prio pai comprou sem ler direito, mais por coleguismo do que por qualquer coisa. Sorte minha, pois no fim das contas tive contato com essas pequenas p\u00e9rolas do humor (com especial destaque para o humor banc\u00e1rio), que foram &#8220;Todos para o banheiro e outras hist\u00f3rias&#8221;, &#8220;Alteza, isso \u00e9 uma baixeza!&#8221; e &#8220;O preguicista&#8221;. <\/p>\n<p>E foi de &#8220;Todos para o banheiro&#8230;&#8221; que eu catei a hist\u00f3ria <a href=\"http:\/\/www.charles.pilger.com.br\/blog\/o-fundo-do-poco\/\">O fundo do po\u00e7o<\/a>. \u00c9 interessante ver que o autor do livro deu espa\u00e7o para o amigo Delacir Mazzini dar um depoimento sobre como um conto que ele escreveu, da sua publica\u00e7\u00e3o original, circulou at\u00e9 aparecer na revista Vis\u00e3o e a sua incorpora\u00e7\u00e3o ao inconsciente coletivo da \u00e9poca:<\/p>\n<blockquote><p>Circularam desse n\u00famero do Satel-Jornal 20.000 exemplares, e a historinha seguiu seu destino. Por ter sido publicada em ocasi\u00e3o muito oportuna, foi reproduzida muitas vezes, e recortes dela circularam por a\u00ed.<\/p>\n<p>Um dia ela apareceu numa coluna da revista Vis\u00e3o. S\u00f3 que o redator da revista n\u00e3o mencionou a fonte. A historinha chegara \u00e0s suas m\u00e3os em forma de recorte xerografado. N\u00e3o foi mencionado o nome da Belgo Mineira, que o redator preferiu chamar de \u00e2\u20ac\u0153dica de corretor\u00e2\u20ac\u009d. E acrescentou mais algumas coisas por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>De qualquer forma, pelo menos mais de 100.000 pessoas tomaram conhecimento da historinha, que j\u00e1 agora, depois de circular por coretoras, financeiras e escrit\u00f3rios, passara a pertencer ao folclore do mercado de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Naturalmente, chegou tamb\u00e9m ao p\u00fablico em geral, com distor\u00e7\u00f5es curiosas. Um dia por exemplo, um motorista de taxi me contou, como sendo fato ver\u00eddico, a not\u00edca de que um investidor, enlouquecido por ter ficado na mis\u00e9ria, tinha atirado o corretor pela janela do 15\u00c2\u00ba andar\u00e2\u20ac\u00a6 E acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tive vontade de fazer a mesma coisa com o meu corretor. Naquele neg\u00f3cio de a\u00e7\u00f5es perdi um terreno que eu tinha em S\u00e3o Miguel Paulista, meu \u00fanico patrim\u00f4nio. <\/p><\/blockquote>\n<p>Como se pode ver essa hist\u00f3ria de uma est\u00f3ria ser apropriada pelo povo n\u00e3o \u00e9 de hoje. Quando se fala de que um texto na Internet acaba sendo repassado adiante sem crit\u00e9rios quanto \u00e0 autoria, com algumas mudan\u00e7as e com ela fazendo parte da vida de algumas pessoas eu me lembro dessa hist\u00f3ria a\u00ed. Se a gente for ver a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 nada genial, \u00e9 sim uma boa cr\u00f4nica daqueles dias de euforia e desespero mas nada al\u00e9m disso. <\/p>\n<p>E ela caiu na boca do povo.<\/p>\n<p>Assim, se voc\u00ea de repente ver um texto seu ou de um amigo se tornando uma corrente via email, d\u00ea um soriso. \u00c9 sinal de que o texto caiu no gosto popular. E se botaram o texto como sendo de autoria do Ver\u00edssimo ou do Jabor melhor. Tem elogio maior para um autor do que mostrar para ele que a sua obra merece ser escrito por um escrito famoso e n\u00e3o por um mero desconhecido?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois \u00e9, agora em abril andei passando uns dias de f\u00e9rias e fui l\u00e1 para a casa dos meus pais, em Taquara. 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