Estado violência

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A foto acima é da capa de hoje do jornal baiano A Tarde. Mostra a ação covarde e violenta da polícia baiana que culminaram no espancamento de estudantes nesse sete de setembro. Deixo aqui registrado uma cópia da matéria que saiu no jornal:

Dizem que ela existe pra proteger

Parecia que o 7 de Setembro acabaria na paz. Mas algo estava por acontecer. Era 12h30 quando eu e a colega Neyse Limma fomos à Praça Municipal. Lá, uns 500 estudantes reunidos, na escadaria da Prefeitura, discutiam se bloqueavam ruas ou não pagavam passagem.

Na verdade, eles compareceram para detonar a parte oficialesca da festa, mas não se misturaram de vera à Marcha dos Excluídos. “Assembléia” rolando, helicóptero da Choque vaiado, tudo normal até aí. Quando chega um bando de mais ou menos 50 PMs e toma o local.

A meninada, provocativa, entoa “marcha soldado, cabeça de papel…” para emendar na seqüência, “polícia é pra ladrão, pra estudante não”. Com os PMs ali, a galera começou a debandar. Perguntamos para um deles o destino: “Lapa, entrar de graça no ônibus”. Seguimos de carro.

Mal chegamos, vinham uns 50, apitando e pulando eufóricos. Acompanhamos o movimento. Desceram para o subsolo da estação, onde estão as linhas da periferia. Tentaram parar um Cajazeira X, mas o motorista fechou as portas. “Se f…, estudante apareceu”, era o grito de guerra.

De forma muita rápida decidem bloquear a pista na entrada da Lapa. Guardamos o crachá de identificação (às vezes a presença da imprensa determina o rumo dos acontecimentos) e descemos com o grupo. No meio do caminho, descem PMs com “cara de mau” de viaturas. Um deles até empurrou um colega jornalista, Luciano Matos, que não estava trabalhando mas caminhava ao nosso lado. A massa adolescente engrossa em número.

Covardia – Parecia mesmo que a coisa ia explodir. Presenciamos a distribuição de cassetetes. A essa altura, a meninada estava barrando a passagem de ônibus no Vale dos Barris. Corremos para ver qual seria o movimento. Os PMs chegam com vontade de bater. Perseguem uma estudante que está com uma câmara digital na mão. Um PM determina que ela entregue o equipamento, o que é negado. Começa a pancadaria.

O policial derruba a garota no chão, puxa seu cabelo. “Crachá na cara deles!”, gritei. Mas ele, agora acompanhado de outro, continua: batem com cassetete, um deles pisa nela. Imagine a cena, é revoltante. Neyse tenta impedir a agressão. Outros estudantes são perseguidos e recebem cacetadas. Os policiais começam a retirar a identificação da farda.

Outro policial persegue um estudante apontando um revolver em sua direção. Todo mundo viu. Não há argumentos que justifiquem a atitude da polícia. Atravesso a avenida porque tem três policiais batendo num cara que carrega uma câmera fotográfica.

Nervosa, levanto o crachá e grito: “Imprensa, Jornal A Tarde. Eu tô vendo tudo”. Um PM mete o pé na parte superior da minha coxa. Agressão à imprensa. Num gesto de desespero, o fotógrafo Juarez de Araújo joga a câmera pra mim (é dele a foto da capa). Mas a máquina cai. Outros policiais chutam e partem pra cima. Um garoto consegue reavê-la e sai correndo. Talvez preocupados com a imprensa, os policiais param de bater.

Cinco viaturas paradas. Tento falar com o comandante da operação, major Couto, mas ele se nega a responder: “Agora não dá pra falar”. Queria saber quem foi que mandou bater nos adolescentes, repetindo a mesma atitude do 16 de maio de 2000, quando a Choque e PM deram porrada em estudantes que se manifestavam em favor da cassação do senador Antonio Carlos Magalhães. Eu também tava lá.

Mas a resposta quem me dá é Luciano Matos: “Um policial sem a tarja de identificação disse: são ordens expressas do governador”. Os estudantes não sabem o que fazer, estão tensos. Dois meninos detidos e levados para a 1ª Delegacia da Policia Civil, no Complexo dos Barris.

A Choque é acionada. Chega o tenente coronel Gondim tentando negociar. Ele diz para os estudantes, eu ouço e anoto: “Vocês têm que entender que não vão ocupar a pista. Se não saírem por bem, a gente vai agir”. Os meninos não sabem o que dizer. Decidem ir até a 1ª Delegacia para onde foram levados os colegas. Vamos junto. A imprensa ainda não pode entrar, diz um tenente da Choque.

Um dos meninos detidos, Lucas Alberto, aparece com dois PMs e é colocado no camburão. Pra onde vai? “Pro Beiru”, responde o policial. A viatura parte a mil. Os estudantes estão aglomerados defronte da delegacia. Quinze horas. Começa a chover. Presságio, talvez, de que hoje o tempo vai fechar.

E igualmente revoltante é o depoimento da estudante que foi atacada por tirar fotos:

Estudante agredida avisa: “Amanhã eu volto à rua”

“Hoje eu vou estravasar!” Essa foi a frase que Diana Neuma Santos de Sant’Anna ouviu da boca do soldado Fernando, da 41ªCP, minutos antes de começar a pancadaria na Estação da Lapa, da qual foi protagonista. A menina, de 17 anos, estudante do segundo semestre de História da Universidade Católica de Salvador, foi o pivô da confusão entre policiais militares e estudantes que se manifestavam em mais um dia de protesto, em pleno 7 de setembro. Tudo porque ela filmava as cenas de truculência dos policiais que decidiram, neste domingo, partir para a ignorância.

“Eles já chegaram empurrando, com o cassetete na mão, provocando os estudantes”, narra Diana, já em casa e depois de passar por um exame de corpo de delito. Para a menina, que, apesar de tudo, continuava sorridente e altiva, os policiais aproveitaram o domingo, feriado, “com pouca gente na rua”, para “barbarizar”. Mas, para um dos membros da 41ª CP, que não quis se identificar, a ação foi uma surpresa.

“Não tô nem acreditando nas cenas que vi”, disse. “Se eles bateram, houve determinação, porque a ordem, até ontem, era não encostar a mão em ninguém. Tanto que a gente ’comeu calado’ esses dias todos”, disse. “Até o próprio major Couto (que aparece nas fotos batendo) era o primeiro a não querer tocar a mão nos estudantes. Não entendo porque se acabou a paciência. Talvez tenha sido ordem superior…do ’dono da Bahia’, talvez”, supõe.

Arbitrariedade – Ao perceber que Diana estava filmando, os policiais pararam um pouco o empurra-empurra e as provocações. Pouco tempo depois, recomeçaram as agressões, e Diana, câmera em punho, voltou a registrar a arbitrariedade. Ao ver a insistência da garota, o major Couto partiu para cima dela. “Aí é que tudo começou”, contou a garota, com uma inabalável calma.

“Ele veio em minha direção para tomar a minha câmera (uma handcam digital comprada há pouco menos de um ano) e eu resisti, contou. Me agarraram. De início, foram dois”, continua Diana, tranqüila. “Um me segurou e outro me deu uma rasteira. Eu caí, e passaram a me bater, me chutar, me pisar. Depois, me arrastaram pelo chão, puxando pelo cabelo, pelo pescoço. Queriam tomar minha câmera a todo custo”.

“Com a pancadaria, senti medo, sim. Afinal, eram cinco policiais com cassetete na mão, contra uma pessoa só, mulher, com um corpo que não foi preparado para isso”, pondera Diana, fazendo o saldo da covardia. “Mas, me defendi bem e não vou ter pesadelos por causa disso hoje, não. Não tenho medo de represálias e, amanhã, volto à rua”.

Apesar da truculência, Diana não se machucou muito. Só alguns hematomas pelos braços, pernas e no rosto. Ela ressalta que quem lhe valeu, para que não tomasse uma “fantada” (porrada de cacetete) na cara foi o estudante Camilo Moutinho Ferreira, 19, estudante de Biologia na UCSal., que, na hora, botou o braço na frente, em seu socorro. Camilo também tentou defender a câmera das mãos dos policiais, mas não conseguiu fugir. O equipamento terminou de posse de major Couto.

Mas Diana manda um recado para os seus agressores: “Cuidado. Porque, nossa guerra não é desse tipo, não é física. Não temos armas, como eles, mas nossa luta é ideológica, é para tentar conscientizar o pessoal para baixar a tarifa e, quem sabe, mas pra frente, lutar por melhores condições de ensino, de vida, e tal e tal”. A estudante deu queixa na 1ª DP e pensa em levar os seus agressores para a Corregedoria da Polícia Militar.

“Não quero ser mártir do movimento”, segue a estudante. “Acho que não existem nem líderes, nem mártires no movimento. Todos têm a mesma importância e querem a mesma coisa: reivindicar por dias melhores”.

E do CMI vem esse detalhe:

Uma camera filmadora foi apreendida. O Major Couto da viatura 94100 tomou a camera da mão de uma garota.

O engraçado é que ele tomou a camera a menina deu pra um \’pivete\’ e depois tomou da mão do guri, para que assim a camera ficasse apreendida como objeto de furto! O canalha usou o moleque pra roubar a camera!!! Major Couto é o seu nome, 94100 é o numero da viatura que ele usava, Policia Militar era o que dizia sua farda…

Pelo jeito a sorte do guri foi não ter levado um tiro na nuca, por ter \”resistido à prisão\”…

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