De volta às armas
Eis uma notícia de hoje do jornal Tribuna de Imprensa, que não tem arquivo online (ou seja, amanhã esse link aí vai apontar para outra notícia). Os negritos-itálicos são meus:
Tribuna de imprensa: Ministro defende população armada
Vice-presidente do STM chama de “absurdo jurídico” referendo sobre proibição da venda de armas
BRASÍLIA - O vice-presidente do Superior Tribunal Militar (STM), Flávio Bierrembach, considera “um absurdo jurídico” a aprovação e a implementação do referendo sobre a proibição de venda de armas e munições no Brasil. Segundo o ministro, os instrumentos do plebiscito e do referendo só podem ser aplicados para definir direitos coletivos ou direitos difusos, e não para estabelecer vetos a direitos individuais.
“O cidadão de bem tem o direito de possuir uma arma para se defender dos criminosos”, disse ele. O projeto de decreto legislativo que prevê a realização do referendo, em outubro, seguiu direto da Comissão de Segurança Pública da Câmara para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).
O ministro afirmou que, se pudesse, organizaria uma campanha que se chamaria “uma garrucha para cada mendigo”, e explicou: “se aqueles mendigos que foram massacrados em São Paulo tivessem uma arma, não teriam sido mortos; se aquelas pessoas chacinadas na Baixada Fluminense tivessem uma garrucha, ainda poderiam estar vivas”.
Relator do projeto que convocou a Assembléia Nacional Constituinte, como deputado federal pelo antigo MDB de São Paulo, Bierrembach sustenta que “uma sociedade em que apenas a polícia e os facínoras podem estar armados não é e nem será uma sociedade democrática”.
Bierrembach acha que a campanha do desarmamento, realizada pelo governo federal desde o ano passado e a possível proibição de venda de armas no País, faz com que “os bandidos se sintam muito mais seguros para atacar os pobres, os trabalhadores e os homens de bem, porque sabem que provavelmente irão enfrentar pessoas desarmadas”.
Segundo o vice-presidente do STM, que participou de debate no Canal CNT de televisão, faltou ao governo Fernando Henrique Cardoso, e falta também ao de Luiz Inácio Lula da Silva, “uma efetiva política de segurança pública”. Agora, concluiu, se for aprovado o referendo para proibir a comercialização de armas, num ambiente de desespero popular pela falta de segurança, o País terá, na realidade, um retrocesso difícil de ser superado no futuro. “O juiz, quando julga, sempre pergunta a quem interessa o caso em questão. Eu acho que o maior interesse na proibição de venda de armas é das empresas de segurança privada, as que mais crescem no Brasil”, afirmou.
AcordoO projeto de decreto legislativo foi desengavetado esta semana, após dez meses sendo boicotado na Comissão de Segurança Pública da Câmara pela chamada bancada da bala. Graças a um acordo entre o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PFL-PE), e a bancada do governo, ficou decidido ontem que o projeto seguirá direto para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) por ter cumprido o prazo regimental de dez sessões sem ter sido votado na comissão anterior.
Da CCJ, o projeto seguirá direto à votação no plenário, até o final deste mês ou início de maio, com a pergunta original: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. O referendo está previsto para 2 de outubro em todo o território nacional e, pela proposta, será obrigatório para os 130 milhões de eleitores brasileiros.
A Justiça deu prazo até o início de maio para que o projeto seja aprovado a tempo de preparar a estrutura de votação, programação e distribuição das urnas eletrônicas. O TSE vai aproveitar a ocasião para testar o novo título de eleitor, com foto e leitura digital do polegar dos votantes.
Pois é… como é que alguém pode dar ao Estado o monopólio do uso de armas? Principalmente num país onde a polícia sobe atirando em morros e mata quase 30 numa briga entre grupos de extermínio? Não dá, simplesmente não dá.
E é claro: não dá para liberar o uso de armas sem exigir que a pessoa que a está comprando não tenha treinamento. Vamos pegar o caso da Suiça, que é um dos melhores exemplos sobre o uso consciente de armas por parte da população. O que é feito lá? Todo jovem tem que servir o serviço militar e apenas pode votar quem serviu (assume-se por lá que é cidadão quem está disposto a dar sua vida para a pátria). Após servir, o jovem entra na reserva, onde vai permanecer até os 50 anos, e recebe do exército um fuzil automático para levar para casa, assim como munição. É óbvio que o ex-soldado recebe todo um treinamento de como usar a arma, de como noções de cidadania, da importância da democracia, da importância dos plebiscitos comunais e de como usar sua arma para defender esses valores.
Tal treinamento democrático é o que falta por exemplo nos Estados Unidos, onde é dado a todo cidadão o direito de uso de armas, mesmo não demonstrando ter tido um programa de instrução do que é ser um cidadão armado. Quem viu Tiros em Columbine sabe muito bem do que estou falando, e é justa a guerra santa que o Michael Moore tem feito contra o fato de ser extremamente simples se conseguir uma arma nos Estados Unidos, tão simples que até um adolescente idiota, que não tem as mínimas noções sobre o uso adequado da arma, o pode fazê-lo. Além do que o Exército Americano é um formador de máquinas de guerra, não de cidadões.
Ou seja: desarmando a população você coloca ela em risco de ser dominada por um grupo armado, seja esse grupo ligado ao Estado (ou aos militares, numa situação de golpe), seja esse grupo ligado ao crime. Ao mesmo tempo deixar o cidadão armado sem ter nenhum treinamento do uso da arma é também um perigo. A solução? Pois é, eu olho para a Suiça e me parece que lá eles acharam a resposta, que é uma velha conhecida nossa e que a gente sempre deixa em segundo plano: EDUCAÇÃO.
Abril 14th, 2005 at 10:44 pm
Oi Charles…
Sou bem contra armas no Brasil por motivos que me parecem bem claros:
- Aqui não é a Suiça ou o Canadá: se deixar arma na mão dos cidadãos os casos de crimes por briguinhas em trânsito e brincadeiras de criança só vão aumentar;
- Se a polícia não faz seu trabalho não sou eu que vou pegar em armas para fazê-lo! Não darei ao governo este crédito: ele que cumpra seu dever ou cumprirei os meus nas urnas e nas ágoras modernas (como esta aqui);
- Se nossa sociedade for capaz de promover a cultura necessária para que as pessoas possam ter armas então já não será mais necessário que ninguém pegue em armas;
- Acho que a idéia de povo armado para defender a democracia já está meio caduca, vivemos em um mundo um pouco diferente do de 50 anos atrás.
É por ai…
Abril 15th, 2005 at 8:48 am
Charles… vamos começar pela coisa mais fácil de falar sobre seu argumento: tamanho geográfico.
Não DÁ para exigir que todo mundo “sirva ao exército” no Brasil. Não ‘ha quartel que aguente. Na Suíça e em Israel, paises do tamanho de Botucatu dá. No Brasil e EUA não rola.
De resto faço minhas as palavras do Roney.
Abril 15th, 2005 at 9:45 am
Acrescento mais uma coisinha: ter uma arma na mão e a barriga dos filhos roncando de fome não é uma boa combinação.
Ter uma arma na mão e 500 frustrações diárias em relação a qualidade de nossa vida e condições materiais e de trabalho, também não é uma boa combinação.
Aqui no Brasil temos de nos defender de dois tipos (no mínimo) de saques: os do assaltante que vem armado e os saques de nossos patrões e demais poderosos cujas armas nunca estiveram proibidas. No segundo tipo, revidar com arma de fogo pouco adianta …
abraço,
Su
Abril 15th, 2005 at 12:04 pm
Aí, no blogger da bleff (www.bleff.blogger.com.br) está rolando uma discussão em um post. Devido aos inumeros comentários, estamos lançando uma PROMOÇÃOzinha, quem for o 100° a comentar nesse post, ganhará um CD da bleff - A Vida em Preto e Branco (não incluindo postagem nos Correios, caso necessário).
Fica o convite para quem se interessar em participar
Abril 18th, 2005 at 11:23 pm
O único fato suíço que sobrevive a quantidade de lenda sobre armamento compulsório dos suíços é que eles continuam fazendo um excelente chocolate.
O fato do voto estar condicionado ao serviço militar é novo para mim, e conflita com o que já levantei sobre o assunto.
De fato, o serviço militar é obrigatório, dura dos 18 aos 30 anos - mas o tempo de treinamento é apenas no início, resumindo-se a três semanas anuais até o fim do serviço.
Se o voto é condicionado ao serviço militar, como se explica o voto feminino? E o motivo do governo querer reduzir seus efetivos de 500 mil para apenas 100 mil? Em 2003, 120 mil cidadãos foram dispensados de prestar serviço - não é barato manter esse tanto de gente. Logo, é lenda quando se diz que todo suíço do sexo homem macho é militar.
Após o fim do serviço, de fato o governo permite que o soldado leve o armamento para casa - faz parte da tradição histórica do país, que tem mais clubes de tiros que times de várzea no Brasil.
Mas soldado levando as armas para casa não é compulsório. Apenas 57% decidem levar os fuzis e apenas 75% levam as pistolas. Mas antes disto, estes armamentos são travados para evitar comportar munição pesada.
O resultado dessa equação de tantas armas circulando acabam acarretando tragédias, como suicídios, violência doméstica/conjungal, chegando mesmo a chacinas de civis.
O país é dividido em distritos autônomos, que dificulta um controle central de armas. Logo, o comércio de armas corre solto - simples lei de mercado: Se há muita disponibilidade de um produto, seu preço tende a cair. Isso vale o apelido para o país de “self-service das armas” pela Europa a fora.
http://www.swissinfo.org/spt/swissinfo.html?siteSect=105&sid=5273950
http://www.swissinfo.org/spt/swissinfo.html?siteSect=105&sid=4926327
http://www.swissinfo.org/spt/swissinfo.html?siteSect=105&sid=1756547
http://www.swissinfo.org/spt/swissinfo.html?siteSect=105&sid=1756897
Junho 27th, 2006 at 3:09 pm
Infelizmente o NÃO ganhou, também as fábricas de armas. Perdemos todos nós com mais armas e munições nas ruas. De que adianta ter arma em casa se em 90% dos casos seremos tomados pelo fator surpresa e não poderemos usar a arma. E então, mais uma arma nas mãos dos bandidos.
E quantas crianças irão morrer por causa de uma arma de fogo mal guardada em casa.
Pobre Brasil.
Ivo Samel
Julho 3rd, 2006 at 7:08 am
Eu gostaria de saber quanto tempo dura um treinamento do exercito para uma pessoa que foi convocada para servir o exercito?Ele é obrigado a servir ou se não quiser não precisa ir?Espero resposta.
Julho 3rd, 2006 at 10:52 am
Se depender de mim o Sami aí vai esperar sentado…